Fila de cirurgias no Hospital Regional de MS chega a 8,4 mil pacientes
Espera média para procedimentos eletivos é de 14 meses. Ortopedia e oftalmologia concentram 52% da demanda represada.

impactoNoBolso: titulo: "A espera pelo bisturi" items: - label: "Pacientes na fila de cirurgia" valor: "14.200 pessoas" - label: "Espera média (ortopedia)" valor: "14 meses" - label: "Ocupação hospitalar" valor: "98%" - label: "Cirurgias realizadas/mês" valor: "420" São 8.412 pacientes na fila de espera para cirurgias eletivas no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul, em Campo Grande. O número, atualizado em 28 de fevereiro pela Secretaria Estadual de Saúde, é o maior desde 2019 e representa um aumento de 34% em relação a março de 2025, quando a fila tinha 6.280 nomes.
A espera média para procedimentos eletivos — aqueles que não são de urgência — é de 14 meses. Para cirurgias ortopédicas, o tempo sobe para 19 meses. Para catarata, 22 meses.
Onde o gargalo é maior
Ortopedia lidera a fila com 2.340 pacientes (27,8% do total). São próteses de quadril e joelho, artroscopias, correções de fraturas consolidadas e cirurgias de coluna. A demanda explodiu nos últimos dois anos por causa do envelhecimento da população e do aumento de acidentes de trânsito.
Oftalmologia vem em segundo com 2.020 pacientes (24%). A cirurgia de catarata, procedimento relativamente simples que leva 30 minutos, responde por 1.640 desses casos. O Hospital Regional tem dois oftalmologistas cirurgiões — para uma fila de 2 mil pessoas.
"Eu opero 8 cataratas por dia, 4 dias por semana. São 128 por mês. A fila tem 1.640. Faça a conta: 13 meses pra zerar, sem contar os novos que entram todo mês", calculou o Dr. Paulo Henrique Moraes, oftalmologista do hospital.
Cirurgia geral (hérnias, vesículas, apêndices) tem 1.480 na fila. Urologia, 890. Ginecologia, 720. Otorrinolaringologia, 540. Cirurgia vascular, 422.
Dona Maria e os 26 meses de espera
Maria das Graças Pereira, 68 anos, moradora do bairro Aero Rancho, espera há 26 meses por uma prótese de quadril. Ela quebrou o fêmur em janeiro de 2024, fez cirurgia de emergência para fixação com placa e parafuso, e desde então aguarda a prótese definitiva.
"Ando de muleta há dois anos. Não consigo subir escada, não consigo tomar banho sozinha. Minha filha largou o emprego pra cuidar de mim. São duas vidas paradas por causa de uma cirurgia."
Dona Maria vai ao Hospital Regional a cada 3 meses para "atualizar a fila" — procedimento burocrático que exige presença física. Se faltar a uma consulta de atualização, perde a vaga e volta ao fim da fila.
"Pego dois ônibus pra ir lá. Chego às 6h, sou atendida às 11h. O médico olha, diz que tá tudo igual, manda voltar em 3 meses. Isso é tratamento?"
Por que a fila cresce
O Hospital Regional tem 8 salas cirúrgicas. Dessas, 6 funcionam regularmente. Uma está interditada desde setembro de 2025 por infiltração no teto. Outra opera em meio período por falta de anestesista.
O hospital realiza, em média, 480 cirurgias eletivas por mês. A demanda mensal de novos pacientes que entram na fila é de 620. A conta não fecha: todo mês, 140 pessoas a mais entram na fila do que saem.
"O problema é estrutural. Não é falta de cirurgião — é falta de sala, de anestesista, de leito de UTI pra pós-operatório. A gente tem médico querendo operar e não tem onde", explicou o diretor clínico do hospital, Dr. Antônio Carlos Vieira.
O déficit de anestesistas é crônico. O Hospital Regional tem 14 anestesistas no quadro — precisaria de 22. O salário oferecido pelo estado, R$ 18.400 para 24 horas semanais, não compete com o mercado privado, onde o mesmo profissional ganha R$ 35 mil a R$ 40 mil.
Mutirões: solução paliativa
A Sesau realizou 3 mutirões cirúrgicos em 2025: dois de catarata (640 cirurgias) e um de hérnia (280 cirurgias). Os mutirões usam equipes extras contratadas temporariamente e funcionam em fins de semana.
O secretário estadual de Saúde, Dr. Frederico Felício, anunciou 4 mutirões para 2026: catarata em abril, ortopedia em junho, hérnia em agosto e cirurgia vascular em outubro. A meta é realizar 2.400 cirurgias extras no ano.
"Mutirão é tapa-buraco. Resolve no curto prazo, mas não ataca a causa. A causa é falta de investimento permanente em infraestrutura e pessoal", criticou a conselheira estadual de saúde, Rosângela Martins.
O Conselho Estadual de Saúde aprovou em fevereiro uma resolução recomendando ao governo a abertura de concurso público para 45 médicos especialistas e 22 anestesistas. O governo informou que "está avaliando a viabilidade orçamentária".
O custo da espera
Pacientes que esperam meses por cirurgia consomem mais recursos do SUS do que se fossem operados rapidamente. Consultas de acompanhamento, exames repetidos, medicamentos para dor e internações por complicações custam, em média, R$ 3.200 por paciente por ano de espera, segundo estudo do Conselho Federal de Medicina.
Com 8.412 pacientes na fila e espera média de 14 meses, o custo da espera para o SUS em MS é estimado em R$ 31,4 milhões por ano — quase o suficiente para construir e equipar um centro cirúrgico completo.
"É o paradoxo do SUS: não tem dinheiro pra operar, mas gasta dinheiro pra manter o paciente esperando. No fim, sai mais caro não operar", resumiu o Dr. Vieira.
Na sala de espera do ambulatório de ortopedia, às 7h30 de uma segunda-feira, 42 pessoas aguardavam. Algumas de muleta, outras de cadeira de rodas. Um senhor dormia sentado, a cabeça tombada para o lado. A televisão, presa na parede, passava um programa de culinária. Ninguém assistia.
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Fonte: Sesau-MS / Hospital Regional de MS / Conselho Estadual de Saúde
❓ Perguntas Frequentes
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O que reduziria a fila de cirurgias no SUS?
Juliana Mendes
Repórter
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