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quinta-feira, 02 de abril de 2026
🏙️ Cidades

Pantanal perde 48 mil hectares em incêndios no início de 2026

Focos de calor em janeiro superaram a média dos últimos 5 anos. Seca antecipada e ventos fortes dificultam combate na região de Corumbá.

Juliana Mendes7 min de leituraCorumbá
Pantanal perde 48 mil hectares em incêndios no início de 2026

O Pantanal sul-mato-grossense perdeu 48.200 hectares para o fogo entre 1º e 31 de janeiro de 2026 — área equivalente a 48 mil campos de futebol. O número é 67% superior à média de janeiro dos últimos cinco anos (28.900 hectares) e acende o alerta para o que pode ser mais um ano devastador para o bioma. Os dados são do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ, com base em imagens do satélite VIIRS.

O Inpe registrou 1.340 focos de calor no Pantanal de MS em janeiro, contra 803 no mesmo mês de 2025. Corumbá concentrou 62% dos focos.

Por que o fogo veio mais cedo

Janeiro é historicamente mês de chuva no Pantanal. A estação chuvosa vai de outubro a março, e é nesse período que a planície alaga, criando a barreira natural contra incêndios. Só que em 2026 a chuva falhou.

A precipitação acumulada em Corumbá entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 foi de 412 mm — 38% abaixo da média histórica de 665 mm. O Rio Paraguai, que deveria estar subindo, registrou cota de 1,87 metro em Ladário no fim de janeiro. A média para o mês é 3,40 metros.

"O Pantanal tá seco como se fosse agosto. Em janeiro. Isso não é normal", disse o tenente-coronel Marcos Ribeiro, comandante do Corpo de Bombeiros em Corumbá, que coordena as operações de combate.

A vegetação seca funciona como combustível. Bastam uma faísca e vento para o fogo se alastrar. Em 18 de janeiro, um incêndio que começou em uma fazenda na região da Nhecolândia avançou 12 km em 6 horas, impulsionado por ventos de 45 km/h. Foram necessários 3 dias e 80 bombeiros para controlá-lo.

As causas: humanas em 90% dos casos

O Ibama estima que 90% dos incêndios no Pantanal têm origem humana. As causas mais comuns: queima de pasto para renovação (prática ilegal sem autorização do Imasul), limpeza de terreno, fogueiras de pescadores e incêndios criminosos.

Em janeiro, o Ibama autuou 7 proprietários rurais por queima ilegal na região de Corumbá. As multas somaram R$ 3,2 milhões. Um fazendeiro foi preso em flagrante no dia 22, quando agentes do Prevfogo encontraram fogo ativo em 800 hectares de sua propriedade, com vestígios de uso de acelerante (diesel).

"O cara bota fogo no pasto em janeiro, com umidade de 15%, vento de 40 km/h, e acha que vai controlar. Não controla. E quem paga é o Pantanal", desabafou o analista ambiental do Ibama, Rodrigo Dutra.

A Polícia Federal abriu inquérito para investigar se há ação coordenada de grileiros por trás dos incêndios na região da Serra do Amolar, onde 8.400 hectares queimaram em uma semana. A área é limítrofe ao Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense.

Fauna e flora: o custo invisível

O biólogo Walfrido Tomás, pesquisador da Embrapa Pantanal, monitora os impactos do fogo na fauna desde 2020. Segundo ele, os incêndios consecutivos — 2020, 2024 e agora 2026 — estão comprometendo a capacidade de recuperação do bioma.

"Em 2020, o Pantanal queimou 4,1 milhões de hectares. A vegetação começou a se recuperar em 2021 e 2022. Aí veio 2024 com mais 2,3 milhões de hectares queimados. Agora, 2026 já começa com fogo. A vegetação não tem tempo de se recompor. É como tirar a casca de uma ferida antes de cicatrizar."

Equipes de resgate da ONG Ampara Animal recolheram 34 animais feridos em janeiro: 12 jacarés, 8 tamanduás, 6 veados-campeiros, 4 araras-azuis e 4 sucuris. Três animais morreram durante o resgate. Os sobreviventes foram levados ao Centro de Reabilitação de Animais Silvestres em Campo Grande.

A arara-azul, símbolo do Pantanal e espécie vulnerável, perdeu áreas de nidificação. O manduvi, árvore onde a arara faz ninho, é particularmente sensível ao fogo — leva 30 anos para atingir o porte adequado para abrigar ninhos.

Combate e recursos

O Corpo de Bombeiros de MS tem 120 militares destacados para o Pantanal, operando em 4 bases avançadas: Corumbá, Miranda, Aquidauana e Porto Murtinho. O Ibama mantém 3 brigadas do Prevfogo com 75 brigadistas. A Marinha cedeu 2 embarcações para transporte de equipes em áreas alagadas.

O governo estadual liberou R$ 12 milhões em crédito extraordinário para combate a incêndios em janeiro. O governo federal repassou R$ 8,5 milhões via Fundo Nacional de Meio Ambiente. Juntos, os recursos cobrem operações até abril — se o fogo não piorar.

"Dinheiro é importante, mas o que falta é gente. Precisamos de 300 bombeiros no Pantanal. Temos 120. Faça a conta", disse o tenente-coronel Ribeiro.

A Força Nacional de Segurança Pública foi acionada pelo governo de MS em 28 de janeiro e enviou 60 agentes especializados em combate a incêndios florestais. Eles chegaram a Corumbá em 1º de fevereiro.

O que esperar para 2026

As projeções não são animadoras. O Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Inpe indica que a estação seca de 2026 no Pantanal deve começar em abril — um mês antes do normal. Se confirmado, o bioma terá apenas dois meses de chuva efetiva (fevereiro e março) antes de enfrentar seis meses de seca.

O cenário é agravado pelo fenômeno La Niña, que reduz as chuvas no Centro-Oeste. A última vez que La Niña coincidiu com seca antecipada no Pantanal foi em 2020 — o ano em que 30% do bioma queimou.

"Não quero ser alarmista, mas os indicadores são parecidos com 2020. Se não chover acima da média em fevereiro e março, vamos ter um ano muito difícil", alertou a meteorologista Hellen Amorim, do Cemtec-MS.

Na estrada que liga Corumbá à Nhecolândia, o cheiro de queimado ainda pairava no ar na primeira semana de fevereiro. Cercas de arame derretidas marcavam o limite do fogo. Um tuiuiú pousado sobre um tronco carbonizado olhava para o nada. O Pantanal, que já sobreviveu a tanta coisa, se preparava para mais uma provação.

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Fonte: Inpe / Ibama / Prevfogo / Corpo de Bombeiros MS

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Juliana Mendes

Repórter