A água que falta e a gestão que sobra em promessas
Artigo de opinião analisa a crise hídrica que atingiu 14 municípios de MS no início de 2026 e questiona o planejamento do governo estadual.
Artigo de Opinião
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Dra. Fernanda Lopes é engenheira ambiental, professora da UFMS e pesquisadora do Laboratório de Recursos Hídricos do Cerrado. As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade da autora e não refletem a posição editorial do Foco do Estado.
Quatorze municípios de Mato Grosso do Sul enfrentaram racionamento de água entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026. Em Três Lagoas, o abastecimento foi cortado por 12 horas diárias durante 18 dias consecutivos. Em Paranaíba, moradores ficaram 72 horas sem uma gota na torneira no Réveillon. Em Aparecida do Taboado, a prefeitura distribuiu água em caminhões-pipa para 3.200 famílias.
Esses fatos não são novidade. São repetição.
Em 2024, foram 9 municípios com racionamento. Em 2023, 7. Em 2022, 11. O padrão é claro: todo verão, quando a demanda sobe e os reservatórios baixam, o sistema colapsa nos mesmos lugares. E todo verão, as mesmas autoridades aparecem na televisão com a mesma cara de surpresa.
O problema não é a chuva
A tentação é culpar o clima. Fácil, conveniente, irrefutável. "Choveu menos que o esperado", disse o diretor da Sanesul em janeiro. Verdade parcial. A precipitação em Três Lagoas entre outubro e dezembro ficou 18% abaixo da média. Mas a média histórica já era suficiente para abastecer a cidade — se o sistema de captação e distribuição funcionasse como deveria.
Três Lagoas tem 125 mil habitantes e um sistema de abastecimento projetado para 90 mil. A última ampliação da estação de tratamento foi em 2014. De lá pra cá, a cidade cresceu 22% em população, ganhou dois condomínios industriais e uma fábrica de celulose que consome 4,8 milhões de litros por dia. O sistema não acompanhou.
Não é seca. É falta de planejamento.
Os números que ninguém mostra
O índice de perdas na distribuição de água em MS é de 38,7%, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. Significa que de cada 100 litros tratados e bombeados, quase 39 se perdem em vazamentos, ligações clandestinas e falhas na medição. A média nacional é 37,5% — ruim também, mas MS está acima.
Em valores: a Sanesul trata e distribui 580 milhões de litros por dia no estado. Perde 224 milhões. Daria para abastecer uma cidade de 450 mil habitantes com o que escorre pelo ralo.
Corumbá tem o pior índice: 52% de perdas. Aquidauana, 47%. Ponta Porã, 44%. São cidades com redes de distribuição antigas, algumas com tubulações de amianto instaladas nos anos 1970, que nunca foram substituídas.
A Sanesul investiu R$ 312 milhões em saneamento em 2025. Parece muito. Mas o Plano Estadual de Saneamento, elaborado em 2019, estimava a necessidade de R$ 4,2 bilhões em investimentos até 2033 para universalizar o acesso à água tratada. No ritmo atual, o estado levaria 13 anos para cumprir a meta — que vence em 7.
A celulose e o dilema da água
Três Lagoas virou a "capital mundial da celulose". Três fábricas — Suzano, Eldorado e a nova unidade da Bracell — consomem juntas 14,2 milhões de litros de água por dia, captados diretamente do Rio Paraná e de poços artesianos. O volume é equivalente ao consumo residencial de toda a cidade.
Não estou dizendo que as fábricas são vilãs. Elas geram 8.400 empregos diretos, pagam R$ 180 milhões em ICMS por ano e transformaram a economia da região. O problema é que a concessão de outorga de uso da água foi feita sem considerar o crescimento urbano simultâneo. A ANA concedeu as outorgas entre 2012 e 2018, quando a população era 20% menor.
"A outorga foi dada com base em dados de 2010. A cidade de 2026 é outra. Ninguém revisou", me disse um técnico do Imasul que pediu anonimato.
Revisar outorgas não é proibir indústria. É gestão. É olhar para o balanço hídrico da bacia e perguntar: tem água pra todo mundo? Se não tem, quem reduz? Quanto? Quando?
O Pantanal como termômetro
Quem acha que a crise hídrica é problema só de cidade não olhou para o Pantanal. O Rio Paraguai registrou em Ladário, em janeiro de 2026, a segunda menor cota para o mês desde 1900: 1,87 metro. A menor foi em 2024, com 1,52 metro. A média histórica para janeiro é 3,40 metros.
O Pantanal depende do pulso de inundação — a cheia anual que alimenta lagoas, corixos e baías. Sem cheia, o peixe não se reproduz, o gado pantaneiro não tem pasto, e o turismo de pesca seca junto com o rio.
Três anos consecutivos de cheias abaixo da média estão redesenhando a paisagem. Áreas que eram permanentemente alagadas viraram campo seco. Espécies de peixes que dependem de lagoas marginais para desovar estão em declínio. Pescadores profissionais de Corumbá relatam queda de 40% na captura desde 2023.
O que precisaria ser feito
Não faltam diagnósticos. Faltam decisões.
Primeiro: revisar todas as outorgas de uso da água nas bacias do Paraná e do Paraguai em MS, cruzando com projeções de crescimento urbano e industrial para 2035. A ANA tem competência para isso. O Imasul pode solicitar.
Segundo: criar um fundo estadual de infraestrutura hídrica, alimentado por royalties da mineração e compensação ambiental das fábricas de celulose. Minas Gerais fez isso em 2019. Funciona.
Terceiro: substituir as redes de distribuição com mais de 30 anos. Custa caro — R$ 1,8 bilhão, segundo estimativa da Sanesul. Mas custa mais caro continuar perdendo 39% da água tratada.
Quarto: parar de tratar saneamento como gasto e começar a tratar como investimento. Cada R$ 1 investido em saneamento economiza R$ 4 em saúde pública, segundo cálculo da OMS. Com 12.800 casos de dengue em Campo Grande em janeiro — doença que se espalha em água parada —, a conta já está chegando.
O silêncio que preocupa
O que mais me incomoda não é a crise. Crises acontecem. O que me incomoda é o silêncio depois. Em março, quando a chuva voltar e as torneiras funcionarem de novo, ninguém mais vai falar de água. Até o próximo verão.
E o ciclo recomeça.
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Fonte: Sanesul / ANA / Imasul
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Dra. Fernanda Lopes
Repórter
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