Tereré: patrimônio imaterial, identidade e resistência do sul-mato-grossense
Análise do significado cultural do tereré como patrimônio imaterial do Brasil e da humanidade. A bebida é elo entre povos indígenas e a sociedade moderna de MS.
Artigo de Opinião
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O tereré não é apenas uma bebida. Em Mato Grosso do Sul, é um código cultural, um ritual de sociabilidade e um instrumento de identidade que une gerações, etnias e classes sociais em torno de uma cuia de erva-mate com água gelada. Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan em 2020 e como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2024 (como prática cultural compartilhada com o Paraguai), o tereré é o elo mais tangível entre a herança indígena Guarani, a cultura fronteiriça paraguaia e a sociedade moderna de Mato Grosso do Sul.
Raízes indígenas: o ka'a dos Guarani
A história do tereré começa milênios antes da colonização europeia. Os povos Guarani e Kaiowá — que habitam o território que hoje corresponde a MS, Paraguai e norte da Argentina — consumiam as folhas do ka'a (Ilex paraguariensis, a erva-mate) de diversas formas: mastigadas diretamente, infundidas em água quente ou em água fria de rios e nascentes.
O consumo com água fria — que os Guarani chamavam de "ka'ay" — era a forma preferida durante os deslocamentos pela floresta e nos trabalhos em dias de calor. A erva-mate fornecia energia, suprimia a fome e tinha propriedades medicinais reconhecidas pela farmacologia indígena: anti-inflamatória, digestiva e estimulante.
Com a colonização espanhola e portuguesa (séculos XVI-XVIII), o consumo do ka'ay passou dos indígenas para os colonos, que adaptaram o consumo ao uso de cuias de porongo (cabaça) e bombas de taquara — e posteriormente de metal. No Paraguai, a bebida fria se consolidou como tereré; no Sul do Brasil, a versão quente se tornou o chimarrão.
O tereré como ritual social
O que distingue o tereré de outras bebidas é sua dimensão social. Tomar tereré é um ato coletivo: uma roda (de amigos, colegas, família, vizinhos) em torno de um garrafa térmica de água gelada, uma cuia e uma bomba. A cuia passa de mão em mão, servida pelo "cevador" — a pessoa responsável por preparar e servir, seguindo uma etiqueta não escrita mas rigorosamente observada.
As regras do tereré revelam valores culturais profundos: não se recusa a primeira cuia oferecida (é desrespeito); o cevador bebe primeiro (para testar se a erva está boa); a cuia roda sempre no sentido horário; não se agradece verbalmente a cada cuia (significa que já não quer mais); e não se mexe na bomba (a posição é definida pelo cevador).
Em Campo Grande, o tereré é consumido em qualquer lugar e momento: nas calçadas, nos escritórios, nos bancos das praças, nas filas de espera, nos intervalos de aula, nos estacionamentos de supermercados. Estima-se que 78% dos adultos de MS consomem tereré regularmente — proporção que sobe para 92% nas cidades de fronteira como Ponta Porã, Dourados e Corumbá.
O tereré e a identidade fronteiriça
A fronteira entre MS e Paraguai não é apenas geográfica — é cultural. O tereré é a expressão mais visível de uma identidade fronteiriça que mistura elementos brasileiros, paraguaios e indígenas. Em Ponta Porã, onde a linha de fronteira é uma avenida e os moradores transitam livremente entre os dois países, o tereré é idêntico dos dois lados — preparado com as mesmas marcas de erva-mate paraguaia (Kurupi, Pajarito, Selecta).
A erva-mate paraguaia domina o mercado de MS por uma razão técnica: ela é processada com secagem por sapecagem (fogo direto) e moída grossa, resultando em um sabor mais intenso e uma textura que suporta melhor a água fria. A erva-mate gaúcha, processada por cancheamento (secagem controlada), é mais fina e amarga — adequada ao chimarrão quente, mas menos apreciada no tereré.
A cadeia econômica da erva-mate
O tereré sustenta uma cadeia econômica significativa em MS. O estado consome aproximadamente 28 mil toneladas de erva-mate por ano — a maior parte importada do Paraguai (65%), com produção doméstica crescendo em MS (20%) e importações do Paraná e RS (15%).
| Elo da cadeia | Dados | Valor |
|---|---|---|
| Consumo anual de erva-mate | 28 mil toneladas | R$ 142 milhões |
| Produtores locais | 320 propriedades | R$ 28 milhões |
| Indústria de beneficiamento | 8 ervateiras | R$ 18 milhões |
| Comércio (atacado + varejo) | 2.400 pontos de venda | R$ 96 milhões |
| Cuias e bombas (artesanato) | 180 artesãos | R$ 4 milhões |
| Empregos diretos | 4.200 postos | — |
O município de Amambai — na fronteira com o Paraguai — é o maior produtor de erva-mate de MS, com 120 das 320 propriedades do estado. A Embrapa desenvolve variedades de Ilex paraguariensis adaptadas ao clima de MS, com maior produtividade e tolerância à seca, visando aumentar a autossuficiência do estado.
As variações regionais
O tereré de MS não é uniforme. Existem variações regionais que refletem microclimas, tradições familiares e influências:
Tereré puro (água gelada): O clássico. Predomina em Campo Grande, Dourados e cidades de fronteira. A água é gelada com gelo em garrafa térmica.
Tereré de suco: Popular no interior agrícola (Maracaju, Chapadão do Sul, Naviraí). A água gelada é substituída por suco de limão, laranja ou abacaxi. Puristas consideram "não ser tereré de verdade".
Tereré de ervas medicinais: Tradição indígena preservada na fronteira. A água leva infusão fria de menta, boldo, gengibre, erva-cidreira ou carqueja, com propriedades medicinais atribuídas por conhecimento ancestral.
Tereré de leite: Variante rara, encontrada em comunidades rurais do norte de MS (Coxim, São Gabriel). A água é substituída por leite gelado com açúcar.
O futuro do patrimônio
O reconhecimento pela Unesco em 2024 trouxe responsabilidades. O Iphan, em parceria com a Fundação de Cultura de MS, elabora o Plano de Salvaguarda do Tereré — conjunto de ações para documentar, preservar e promover a prática cultural. As ações incluem mapeamento de cevadores tradicionais como "mestres do saber", criação de circuito turístico do tereré em Campo Grande e registro audiovisual das técnicas de preparo de comunidades Guarani.
O tereré é, ao final, um ato de resistência cultural. Em um mundo de bebidas industrializadas e individualizadas, a roda de tereré é analógica, coletiva e presencial. É a recusa pacífica de Mato Grosso do Sul em se diluir na homogeneização cultural — uma cuia por vez.
💰 A economia do tereré em MS
Consumo anual de erva-mate em MS
28 mil toneladas
Receita do setor
R$ 142 milhões/ano
Empregos na cadeia
4.200 postos
Produtores de erva-mate
320 propriedades
Fonte: Iphan / Unesco / Fundação de Cultura de MS
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Marcos Vinícius Borges
Repórter
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