Pular para o conteúdo
quinta-feira, 02 de abril de 2026
🚔 Polícia

Operação contra jogo do bicho em Campo Grande prende 8 e apreende R$ 1,2 milhão

Gaeco e PM desarticulam rede com 34 pontos de apostas. Líder operava há 18 anos. Dinheiro era lavado em lava-jatos e estacionamentos.

Camila Ferreira6 min de leituraCampo Grande
Operação contra jogo do bicho em Campo Grande prende 8 e apreende R$ 1,2 milhão

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, em operação conjunta com a Polícia Militar, prendeu 8 pessoas e desarticulou uma das maiores redes de jogo do bicho de Campo Grande na manhã de quarta-feira, 28 de janeiro de 2026. A ação, batizada de "Operação Zoofortuna", resultou na apreensão de R$ 1,2 milhão em espécie, 12 máquinas de apostas eletrônicas, 48 celulares e documentos contábeis que revelam a dimensão da organização criminosa.

A investigação que revelou o esquema

A investigação conduzida pelo Gaeco durou 10 meses e mobilizou promotores, policiais militares e analistas financeiros do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD). O trabalho incluiu interceptação telefônica autorizada judicialmente, vigilância física e eletrônica, análise de movimentações bancárias e cruzamento de dados fiscais.

Os primeiros indícios surgiram de uma denúncia anônima recebida pelo Disque-Denúncia em março de 2025, que apontava a existência de uma rede de apostas operando de forma organizada em diversos bairros da capital. A partir dessa ponta inicial, os investigadores mapearam toda a estrutura hierárquica do grupo, identificando 34 pontos de apostas distribuídos em bancas de jornal, bares, mercearias e até em um salão de beleza no bairro Monte Castelo.

"O que impressionou foi o grau de organização. A rede tinha contabilidade própria, software de gestão de apostas e até plano de saúde informal para os apontadores", afirmou o promotor responsável pelo caso, Dr. Marcos Vinicius Torres, coordenador do Gaeco.

O líder da rede: 18 anos de atuação impune

O líder da organização, identificado como J.B.S., de 62 anos, operava o jogo do bicho em Campo Grande há pelo menos 18 anos — praticamente duas décadas de atuação sem qualquer condenação criminal. Morador de uma mansão no bairro Chácara Cachoeira, avaliada em R$ 3,8 milhões, J.B.S. possuía 4 veículos de luxo, incluindo uma BMW X5 e uma Mercedes-Benz GLE.

A ostentação do líder era desproporcional à sua declaração de imposto de renda, na qual constava como proprietário de um "pequeno estacionamento" com renda mensal declarada de R$ 4.500. Na realidade, o faturamento mensal do esquema era estimado em R$ 480 mil — mais de R$ 5,7 milhões por ano, com margem de lucro de aproximadamente 60% após o pagamento de prêmios aos ganhadores e comissões aos apontadores.

A estrutura hierárquica da rede era composta por três níveis: no topo, J.B.S. e dois gerentes financeiros; no meio, cinco coordenadores regionais, cada um responsável por entre 5 e 8 pontos de apostas; e na base, os apontadores — os responsáveis diretos pelo registro das apostas —, que recebiam comissão de 15% sobre o total arrecadado em seus respectivos pontos.

O esquema de lavagem de dinheiro

O dinheiro das apostas ilegais era lavado através de três lava-jatos e dois estacionamentos de propriedade do grupo em diferentes bairros de Campo Grande. Os estabelecimentos funcionavam normalmente, prestando serviços reais a clientes, mas emitiam notas fiscais infladas — registrando serviços nunca realizados — para justificar a entrada de dinheiro proveniente do jogo do bicho.

A análise financeira do LAB-LD identificou que os lava-jatos declaravam faturamento médio mensal de R$ 180 mil, quando empreendimentos similares na região faturavam entre R$ 25 mil e R$ 40 mil. A discrepância era um dos principais indicadores de lavagem.

Os investigadores também descobriram que parte dos lucros era reinvestida na compra de imóveis — ao todo, 7 imóveis foram identificados como adquiridos com recursos de origem ilícita, incluindo lotes em condomínios de alto padrão no bairro Jardim Veraneio e apartamentos no centro da cidade.

Atividade ilícita Valor estimado Período
Faturamento com apostas R$ 5,7 milhões/ano 2024-2026
Lavagem via lava-jatos R$ 2,16 milhões/ano 2023-2026
Patrimônio imobiliário ilícito R$ 12,3 milhões Acumulado
Evasão fiscal estimada R$ 1,1 milhão/ano 2024-2026
Comissões a apontadores R$ 860 mil/ano 2024-2026

A operação e as apreensões

A "Operação Zoofortuna" mobilizou 120 policiais militares, 8 promotores do Gaeco e equipes da Receita Estadual, que cumpriram simultaneamente 42 mandados de busca e apreensão em 38 endereços de Campo Grande. A ação começou às 5h30 da manhã e se estendeu até as 14h.

Além dos R$ 1,2 milhão em espécie — encontrado principalmente na residência do líder, dividido entre um cofre e diversos esconderijos no forro da casa —, foram apreendidos 12 máquinas de apostas eletrônicas, 48 celulares com aplicativos de gestão de apostas, 3 veículos de luxo, computadores com softwares de contabilidade paralela e centenas de "pules" — os recibos tradicionais do jogo do bicho.

Os 8 presos em flagrante incluem o líder J.B.S., seus dois gerentes financeiros e cinco coordenadores regionais. Outros 12 suspeitos, entre apontadores e administradores dos estabelecimentos usados para lavagem, foram indiciados e responderão em liberdade, com medidas cautelares como proibição de contato entre eles e entrega de passaportes.

Impacto social e conexões com outros crimes

O Gaeco alerta que o jogo do bicho não é apenas uma contravenção de baixo impacto, como parte da população acredita. "O jogo do bicho financia outras atividades criminosas. Nas investigações, encontramos indícios de que parte dos lucros era repassada a milícias digitais e que o esquema era utilizado para lavagem de dinheiro proveniente de outros crimes", explicou o promotor Torres.

Em Campo Grande, a Secretaria de Assistência Social estima que 3.200 pessoas são dependentes problemáticos de apostas, incluindo jogos de azar tradicionais e digitais. O custo social inclui endividamento familiar, inadimplência e, em casos extremos, o comprometimento de recursos destinados à alimentação e saúde de famílias de baixa renda.

A operação também revelou conexões com o jogo do bicho em cidades do interior, especialmente Dourados e Três Lagoas, onde a rede de J.B.S. mantinha parcerias com operadores locais. O Gaeco informou que a investigação nesses municípios continua e que novas fases da operação podem ser deflagradas nos próximos meses.

Consequências jurídicas

Os 8 presos responderão por contravenção penal (jogo do bicho, artigo 58 do Decreto-Lei 3.688/41), organização criminosa (Lei 12.850/2013, pena de 3 a 8 anos de reclusão) e lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998, pena de 3 a 10 anos de reclusão). O Ministério Público pediu o sequestro judicial de R$ 8,4 milhões em bens do grupo, incluindo 7 imóveis, 4 veículos, contas bancárias e investimentos financeiros.

O juiz da 1ª Vara Criminal de Campo Grande expediu a ordem de sequestro em caráter de urgência e determinou que os bens fiquem indisponíveis até o julgamento final dos réus. Caso condenados, os valores serão revertidos ao Fundo Estadual de Segurança Pública, com previsão de destinação para programas de prevenção ao vício em apostas.

A Ordem dos Advogados do Brasil — Seccional MS manifestou-se pela garantia do direito de defesa dos presos e informou que acompanhará os desdobramentos processuais. Os advogados dos acusados solicitaram audiência de custódia para os 8 presos, realizada na tarde do mesmo dia, com a manutenção de todas as prisões preventivas pelo juízo.

💰 O custo do jogo ilegal para Campo Grande

1

Movimentação anual da rede

R$ 5,7 milhões

2

Bens sequestrados pela Justiça

R$ 8,4 milhões

3

Evasão fiscal estimada/ano

R$ 1,1 milhão

4

Pontos de aposta desativados

34 pontos

Fonte: Gaeco-MP / PM-MS / Sejusp

❓ Perguntas Frequentes

🗳️ Enquete

Qual medida é mais eficaz no combate ao jogo do bicho?

#jogo do bicho#operação#Gaeco#Campo Grande#lavagem dinheiro#prisão
Compartilhar:f𝕏watg
CF

Camila Ferreira

Repórter