Arroba do boi cai 18% em MS e pecuaristas adiam venda para segurar preço
Cotação recuou de R$ 312 para R$ 256 no trimestre. Oferta elevada e China comprando menos pressionam mercado. Confinadores sentem mais.

A arroba do boi gordo em Mato Grosso do Sul fechou a terceira semana de março cotada a R$ 256 — queda de 18% em relação aos R$ 312 de dezembro de 2025. É o menor valor em 14 meses e coloca a pecuária sul-mato-grossense em alerta. O estado tem 21 milhões de cabeças e é o terceiro maior rebanho do Brasil.
A queda reflete dois fatores simultâneos: oferta elevada de animais prontos para abate (resultado do ciclo pecuário de retenção que se encerrou em 2025) e redução de 14% nas importações chinesas de carne bovina brasileira no primeiro bimestre de 2026.
O ciclo pecuário e a oferta
O Brasil abateu 9,2 milhões de cabeças em janeiro e fevereiro de 2026 — recorde para o bimestre e 8,3% acima do mesmo período de 2025. MS contribuiu com 1,4 milhão de cabeças, alta de 11%.
O aumento da oferta é consequência do ciclo pecuário. Entre 2021 e 2024, os pecuaristas retiveram fêmeas para reprodução, reduzindo o abate e elevando os preços. A arroba chegou a R$ 340 em outubro de 2024. Com o rebanho ampliado, a fase de descarte começou em 2025 — mais animais prontos, mais oferta, preço em queda.
"É o ciclo. Sobe, retém, multiplica, desce. Quem entende o ciclo, se prepara. Quem não entende, vende no desespero e perde dinheiro", disse o consultor Rogério Fernandes, da Scot Consultoria.
Em MS, 34% dos pecuaristas estão adiando a venda de boi gordo, esperando recuperação de preço. A estratégia tem risco: manter o boi no pasto custa R$ 4,80 por dia (sal mineral, vacina, manutenção de cerca). Se o preço não subir em 60 dias, o custo de manutenção come a margem.
A China e o mercado externo
A China comprou 48% da carne bovina exportada por MS em 2025. No primeiro bimestre de 2026, as importações chinesas de carne brasileira caíram 14% em volume — de 420 mil toneladas para 361 mil. A queda é atribuída ao aumento dos estoques chineses (que importaram volumes recordes em 2024) e à desaceleração econômica do país.
"A China tá digerindo o que comprou em 2024. Encheu o freezer. Agora tá comendo o estoque antes de comprar mais", resumiu o analista de mercado Vlamir Brandalizze.
A expectativa é de recuperação no segundo semestre, quando os estoques chineses se esgotarem e a demanda sazonal (Festival de Outono, em setembro) aquecer as compras. Até lá, o pecuarista de MS convive com preço apertado.
Impacto no interior
Nos municípios onde a pecuária é a principal atividade econômica — Aquidauana, Miranda, Corumbá, Ribas do Rio Pardo, Água Clara —, a queda da arroba se traduz em menos dinheiro circulando. Lojas de insumos agropecuários relatam queda de 20% nas vendas em fevereiro e março.
"Quando o boi tá bom, o pecuarista compra caminhonete, reforma a casa, viaja. Quando tá ruim, ele corta tudo. E quem vende pra ele — loja de ração, veterinária, mecânica — sente junto", disse o comerciante Antônio Vidotto, dono de uma agropecuária em Aquidauana.
A Famasul estima que a queda de 18% na arroba representa perda de R$ 2,8 bilhões na receita bruta da pecuária de MS no primeiro trimestre — comparado ao mesmo período de 2025. O impacto no PIB estadual é estimado em 0,9 ponto percentual.
O presidente da Famasul, Marcelo Bertoni, pediu ao governo federal a ampliação das linhas de crédito do Pronamp (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural) com juros subsidiados para pecuaristas que precisam manter o rebanho durante a baixa de preços. "O produtor não pode ser obrigado a vender na baixa porque não tem capital de giro. Crédito barato segura o rebanho e estabiliza o mercado."
Na feira de gado de Campo Grande, numa sexta-feira de março, o leiloeiro anunciava lotes de boi gordo com entusiasmo profissional. Os lances vinham devagar. Um pecuarista de Ribas do Rio Pardo, sentado na última fileira, cruzou os braços e não levantou a placa. "A R$ 256, eu não vendo. Prefiro gastar com pasto e esperar. Já passei por ciclo pior."
Perspectivas para o segundo semestre
A expectativa dos analistas de mercado é de que a arroba se recupere para a faixa de R$ 280-300 no segundo semestre de 2026, impulsionada pela entressafra (menor oferta de gado gordo) e pela retomada das compras chinesas após o feriado do Ano Novo Chinês. O programa Boi Garantido do Senar-MS oferece consultoria gratuita de gestão financeira para pequenos e médios pecuaristas — incluindo análise de custos, planejamento de abate e estratégias de hedge no mercado futuro da B3. Produtores com margem negativa são orientados a reter o gado no pasto e aguardar a valorização sazonal, desde que os custos de manutenção não excedam R$ 8/cabeça/dia.
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💰 O bolso do pecuarista
Arroba atual
R$ 264
Queda em 4 meses
-15%
Custo de produção
R$ 220/arroba
Margem atual
R$ 44/arroba (-55%)
Fonte: Scot Consultoria / Famasul / Cepea-Esalq
❓ Perguntas Frequentes
🗳️ Enquete
Como o pecuarista pode se proteger da queda de preço?
Marcos Vinícius Borges
Repórter
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