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quinta-feira, 02 de abril de 2026
🏙️ Cidades

MP investiga contaminação por agrotóxicos no Rio Verde em Caarapó

Mortandade de peixes alertou moradores. Análise detectou glifosato 8 vezes acima do limite europeu. Fazendeiro é notificado.

Juliana Mendes6 min de leituraCaarapó
MP investiga contaminação por agrotóxicos no Rio Verde em Caarapó

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul abriu investigação sobre a contaminação do Rio Verde, no município de Caarapó (sul do estado), após a mortandade de aproximadamente 4.200 peixes em um trecho de 12 quilômetros do curso d'água ser registrada por moradores na última semana de janeiro de 2026. Análises laboratoriais realizadas pelo Instituto de Meio Ambiente de MS (Imasul) detectaram glifosato em concentração de 4.000 microgramas por litro — 8 vezes acima do limite máximo permitido pela legislação europeia (500 µg/L) e 5,6 vezes acima do padrão brasileiro de potabilidade (700 µg/L).

A descoberta da contaminação

A mortandade foi percebida primeiro por pescadores e moradores ribeirinhos na sexta-feira, 31 de janeiro, quando centenas de peixes mortos — predominantemente lambaris, piaus, cascudos e traíras — começaram a aparecer boiando na superfície do Rio Verde, entre as coordenadas da ponte da MS-157 e a confluência com o Córrego Laranja Doce.

Jorge Nunes, 62 anos, pescador aposentado e morador da comunidade de Bocajá (ribeirinha do Rio Verde), foi um dos primeiros a alertar as autoridades: "Pesquei neste rio por 40 anos. Nunca vi nada assim. A água estava com cheiro forte, os peixes apareciam mortos em bandos. Era uma cena triste."

A Defesa Civil de Caarapó foi acionada no sábado, 1º de fevereiro, e isolou o trecho afetado. O Imasul enviou uma equipe técnica no domingo para coleta de amostras de água, sedimento e tecidos dos peixes mortos. As amostras foram enviadas ao laboratório de referência da Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna (SP), para análise completa.

Os resultados laboratoriais

Os laudos, liberados em 10 dias, confirmaram o que os técnicos suspeitavam: a causa da mortandade foi a contaminação por herbicida à base de glifosato — o agrotóxico mais utilizado no Brasil e no mundo, amplamente empregado nas lavouras de soja transgênica.

Parâmetro Valor detectado Limite brasileiro Limite europeu
Glifosato 4.000 µg/L 700 µg/L 500 µg/L
AMPA (metabólito) 2.800 µg/L 700 µg/L 500 µg/L
2,4-D 240 µg/L 30 µg/L 1 µg/L
Atrazina 18 µg/L 2 µg/L 0,1 µg/L
pH da água 4,8 6,0-9,5 6,5-9,5
Oxigênio dissolvido 1,2 mg/L >5 mg/L >5 mg/L

Além do glifosato, foram detectados outros três agrotóxicos em concentrações acima dos limites legais: AMPA (metabólito de degradação do glifosato), 2,4-D (herbicida hormonal) e atrazina (herbicida seletivo). O pH da água estava em 4,8 (ácido, quando o normal é neutro a ligeiramente alcalino) e o oxigênio dissolvido em apenas 1,2 mg/L — insuficiente para a sobrevivência de peixes, que necessitam de pelo menos 5 mg/L.

A origem da contaminação

A investigação do Imasul, complementada por vistoria da Polícia Militar Ambiental, identificou que a contaminação teve origem em uma propriedade rural de 2.400 hectares às margens do Rio Verde, onde lavouras de soja transgênica se estendem até a beira da água, sem respeitar a faixa de Área de Preservação Permanente (APP) de 30 metros exigida pelo Código Florestal.

A vistoria constatou que a aplicação de herbicida foi feita por avião agrícola em um dia de vento forte (25 km/h) — condição proibida pela legislação (a Instrução Normativa 2/2008 do Ibama proíbe pulverização aérea com ventos acima de 10 km/h). A combinação de ausência de APP, vento forte e aplicação por via aérea causou a deriva do produto diretamente para o curso d'água.

O proprietário da fazenda, identificado como A.M.V., 54 anos, foi notificado pelo MP e pelo Imasul. A empresa de aviação agrícola que realizou a aplicação — sediada em Dourados — também foi autuada.

Impacto ambiental e ecológico

O biólogo Dr. Rafael Martins, da Embrapa Pantanal, que coordenou a avaliação de danos, classificou o evento como "um desastre ambiental localizado, mas de alta gravidade". Os 4.200 peixes mortos incluíam 14 espécies nativas, entre elas o dourado (Salminus brasiliensis), listado como vulnerável na lista de espécies ameaçadas de MS.

A contaminação afetou não apenas os peixes, mas todo o ecossistema aquático: invertebrados (larvas de insetos, crustáceos), plantas aquáticas e microrganismos que compõem a base da cadeia alimentar do rio. A recuperação completa do trecho afetado pode levar de 2 a 3 anos, dependendo do volume de chuvas e da capacidade de autodepuração do rio.

"O glifosato não desaparece imediatamente da água. Ele se degrada lentamente — o tempo de meia-vida em rios tropicais é de 30 a 90 dias. Isso significa que o trecho afetado continuará tóxico por semanas após o evento", explicou Dr. Martins.

A questão do glifosato no Brasil

O caso do Rio Verde em Caarapó reacende o debate sobre o uso do glifosato no Brasil — o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Em 2025, o país utilizou 724 mil toneladas de glifosato, segundo o Ibama, principalmente em lavouras de soja (85%), milho (8%) e algodão (4%).

A legislação brasileira permite concentrações de glifosato na água significativamente mais altas do que a europeia (700 µg/L no Brasil contra 0,1 µg/L na União Europeia para água potável). Movimentos ambientalistas e parte da comunidade científica defendem a adoção de parâmetros mais restritivos, enquanto o setor agrícola argumenta que os limites brasileiros são seguros e baseados em avaliações de risco específicas para as condições tropicais.

O fazendeiro A.M.V. responderá criminalmente pela contaminação com base na Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998). Em caso de condenação por poluição de recurso hídrico com mortandade de fauna, a pena prevista é de 1 a 5 anos de reclusão, além de multa de R$ 5 mil a R$ 50 milhões e obrigação de reparação integral do dano ambiental.

O MP requereu judicialmente a recomposição da APP de 30 metros ao longo de todo o trecho da propriedade às margens do Rio Verde — o que obrigará o fazendeiro a replantar vegetação nativa em aproximadamente 3,6 hectares de área atualmente cultivada com soja.

💰 O custo ambiental do descuido

1

Glifosato detectado na água

8x acima do limite UE

2

Peixes mortos estimados

4.200 exemplares

3

Extensão do rio afetada

12 km

4

Multa ambiental estimada

Até R$ 50 milhões

Fonte: MP-MS / Imasul / Embrapa / Sanesul

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#agrotóxicos#Rio Verde#Caarapó#contaminação#meio ambiente#peixes
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Juliana Mendes

Repórter