Safra de soja em MS bate recorde com 14,2 milhões de toneladas
Estado consolida posição de terceiro maior produtor do país. Clima favorável e investimento em tecnologia impulsionaram produtividade acima da média nacional.

Mato Grosso do Sul registrou safra recorde de soja na temporada 2025/2026, alcançando 14,2 milhões de toneladas — volume 8,3% superior ao da safra anterior e que consolida o estado como o terceiro maior produtor nacional do grão, atrás apenas de Mato Grosso e Paraná. Os dados foram divulgados pela Associação dos Produtores de Soja de MS (Aprosoja-MS) em parceria com o IBGE, e superam as projeções mais otimistas feitas no início do plantio.
A produtividade média ficou em 3.680 kg por hectare, 12% acima da média nacional de 3.284 kg/ha registrada pela Conab. A área plantada também cresceu, totalizando 3,86 milhões de hectares — um aumento de 3,2% em relação à temporada anterior, impulsionado pela conversão de pastagens degradadas em lavouras, especialmente nas regiões do Bolsão e do cone sul do estado.
Fatores do recorde
| Estado | Produção 2026 | Produtividade | Área plantada |
|---|---|---|---|
| Mato Grosso | 43,2 Mt | 3.520 kg/ha | 12,3 Mha |
| Paraná | 21,8 Mt | 3.410 kg/ha | 6,4 Mha |
| Mato Grosso do Sul | 14,2 Mt | 3.680 kg/ha | 3,86 Mha |
| Goiás | 14,0 Mt | 3.390 kg/ha | 4,1 Mha |
| Rio Grande do Sul | 13,5 Mt | 3.200 kg/ha | 4,2 Mha |
O resultado excepcional desta safra se deve a uma combinação de fatores climáticos, tecnológicos e de gestão que beneficiaram os produtores sul-mato-grossenses ao longo de todo o ciclo produtivo. Especialistas em agronomia apontam que 2025/2026 reuniu condições que raramente se apresentam simultaneamente.
Do ponto de vista climático, a distribuição regular de chuvas durante todo o período de desenvolvimento das culturas foi determinante. Diferente das duas safras anteriores, marcadas por veranicos intensos entre janeiro e fevereiro que reduziram significativamente a produtividade em várias regiões, a temporada 2025/2026 registrou precipitações regulares e bem distribuídas, sem períodos prolongados de estiagem durante as fases críticas de floração e enchimento de grãos.
"Tivemos o que chamamos de 'safra perfeita' em termos climáticos. As chuvas começaram no momento certo, em setembro, permitindo um plantio antecipado, e se mantiveram regulares até março, quando as colheitadeiras já estavam no campo", explicou o agrônomo e diretor técnico da Aprosoja-MS, destacando que o fenômeno La Niña, que havia prejudicado as safras de 2023 e 2024, deu lugar a condições de neutralidade climática favoráveis.
O investimento em tecnologia agrícola também foi fundamental. Pesquisa da Aprosoja-MS indica que 72% dos produtores sul-mato-grossenses utilizam agricultura de precisão com GPS e sensoriamento remoto, taxa que coloca o estado na vanguarda tecnológica do agronegócio brasileiro. A utilização de drones para pulverização e monitoramento de lavouras cresceu 45% em relação à safra anterior, permitindo aplicações mais eficientes de insumos e detecção precoce de pragas e doenças.
As novas cultivares desenvolvidas pela Embrapa e por empresas privadas de sementes, com maior tolerância ao estresse hídrico e resistência à ferrugem-asiática, contribuíram para manter a produtividade elevada mesmo em áreas que historicamente apresentam solos menos férteis. A adoção de inoculantes biológicos em substituição parcial a fertilizantes químicos também ganhou escala, reduzindo custos de produção em média 8% por hectare e melhorando a sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Impacto econômico
O valor bruto da produção de soja em MS nesta safra é estimado em R$ 52 bilhões, representando um aumento real de 15% em relação à temporada anterior. A commodity é responsável por 35% do PIB agropecuário do estado e gera efeitos multiplicadores em toda a cadeia produtiva, desde a indústria de insumos até o setor de serviços nas cidades do interior.
O economista e pesquisador da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de MS, Dr. Marcos Silveira, destaca que o impacto vai muito além da porteira. "Para cada emprego direto na produção de soja, são gerados de quatro a cinco empregos indiretos em transporte, armazenagem, manutenção de máquinas, comércio e serviços. Uma safra recorde como esta injeta uma massa de recursos que aquece a economia de todo o interior do estado."
A cadeia logística também bateu recordes. O porto de Santos recebeu volume recorde de soja embarcada com origem em MS, e a ferrovia Malha Oeste transportou 2,8 milhões de toneladas do grão sul-mato-grossense, reduzindo a dependência do modal rodoviário. O investimento do setor privado em armazéns e silos cresceu 18% na última safra, adicionando 1,2 milhão de toneladas de capacidade estática ao estado.
Desafios e perspectivas
Apesar do resultado recorde, o setor enfrenta desafios estruturais que podem limitar o crescimento futuro. A logística de escoamento continua sendo o principal gargalo, com filas de caminhões de até 72 horas nos terminais ferroviários de Maracaju e Chapadão do Sul durante o pico da colheita. A capacidade de armazenagem do estado representa apenas 60% da produção, forçando produtores a vender o grão no pico da safra quando os preços tendem a ser mais baixos.
A questão ambiental também ganha relevância à medida que a área plantada se expande. O Código Florestal determina que propriedades rurais no bioma Cerrado (que cobre 61% do estado) mantenham no mínimo 20% da área como reserva legal. Organizações ambientais alertam que a conversão de pastagens degradadas — embora menos impactante que o desmatamento direto — precisa ser monitorada para garantir conformidade com a legislação e atender às exigências de mercados compradores cada vez mais exigentes em rastreabilidade socioambiental.
Para a próxima safra, as perspectivas são cautelosamente otimistas. O câmbio favorável, com o dólar acima de R$ 5,50, mantém a rentabilidade do produtor brasileiro. Porém, os custos de insumos, especialmente fertilizantes importados, seguem elevados, e as incertezas geopolíticas globais podem afetar a demanda chinesa — destino de 65% da soja sul-mato-grossense.
"O produtor de MS está capitalizado e tecnologicamente preparado. Se o clima colaborar novamente, podemos romper a barreira dos 15 milhões de toneladas na próxima safra e consolidar definitivamente MS como uma potência agropecuária global", projetou o presidente da Aprosoja-MS.
Tecnologia e sustentabilidade: o novo paradigma
A safra recorde também marca a consolidação de um novo paradigma produtivo em que tecnologia e sustentabilidade não são mais conceitos antagônicos, mas complementares. O sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), promovido pela Embrapa, ganhou escala significativa em MS, com 180 mil hectares operando nesse modelo — crescimento de 25% em relação à safra anterior. O ILPF permite que o mesmo hectare produza grãos, proteína animal e madeira em ciclos alternados, maximizando a rentabilidade por área e reduzindo a pressão por abertura de novas áreas.
O uso de bioinsumos — produtos biológicos que substituem parcialmente agrotóxicos e fertilizantes sintéticos — também experimentou crescimento expressivo. A área tratada com bioinsumos em MS saltou de 320 mil hectares em 2023/2024 para 780 mil hectares em 2025/2026, impulsionada tanto pela redução de custos (economia média de R$ 280 por hectare) quanto pela crescente exigência de mercados internacionais por produtos com menor carga química residual.
A agricultura regenerativa, que vai além da sustentabilidade ao buscar restaurar a saúde do solo, ganha adeptos entre os produtores mais visionários do estado. Práticas como plantio direto (já adotado em 92% da área de soja em MS), rotação de culturas com espécies de cobertura e uso de compostagem orgânica de resíduos agroindustriais estão contribuindo para o aumento do teor de matéria orgânica do solo — indicador que subiu de 2,8% para 3,4% em média nas áreas de produção intensiva nos últimos cinco anos, segundo dados do Laboratório de Solos da Embrapa Agropecuária Oeste.
"O produtor de MS entendeu que solo saudável é solo produtivo. A safra recorde não é apenas resultado do clima favorável — é consequência de duas décadas de investimento em conservação do solo, manejo integrado de pragas e adoção de tecnologias que potencializam a biologia natural do sistema agrícola", destacou o pesquisador da Embrapa, Dr. Fernando Macena, especialista em sistemas de produção sustentável.
💰 Safra Recorde no Seu Bolso
Valor bruto da produção
R$ 52 bilhões
Receita por hectare plantado
R$ 13.470/ha
Empregos na cadeia da soja
5 indiretos por 1 direto
Imposto gerado (ICMS estimado)
R$ 2,8 bilhões
Fonte: IBGE / Aprosoja-MS
❓ Perguntas Frequentes
Não, MS é o terceiro, atrás de Mato Grosso e Paraná. Mas a produtividade por hectare em MS (3.680 kg/ha) superou a média nacional em 12%.
65% é exportada para a China. O restante abastece a indústria nacional de óleos, farelos e rações.
A expansão recente se dá majoritariamente por conversão de pastagens degradadas, não por desmatamento direto. Porém, o monitoramento ambiental é essencial.
Com produtividade média de 3.680 kg/ha e preço de R$ 140/saca, a receita bruta gira em torno de R$ 8.500/ha antes dos custos.
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Roberto Almeida
Repórter
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