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quinta-feira, 02 de abril de 2026
🌾 Agro

Safra de soja em MS bate recorde com 14,2 milhões de toneladas

Estado consolida posição de terceiro maior produtor do país. Clima favorável e investimento em tecnologia impulsionaram produtividade acima da média nacional.

Roberto Almeida6 min de leituraCampo Grande
Safra de soja em MS bate recorde com 14,2 milhões de toneladas

Mato Grosso do Sul registrou safra recorde de soja na temporada 2025/2026, alcançando 14,2 milhões de toneladas — volume 8,3% superior ao da safra anterior e que consolida o estado como o terceiro maior produtor nacional do grão, atrás apenas de Mato Grosso e Paraná. Os dados foram divulgados pela Associação dos Produtores de Soja de MS (Aprosoja-MS) em parceria com o IBGE, e superam as projeções mais otimistas feitas no início do plantio.

A produtividade média ficou em 3.680 kg por hectare, 12% acima da média nacional de 3.284 kg/ha registrada pela Conab. A área plantada também cresceu, totalizando 3,86 milhões de hectares — um aumento de 3,2% em relação à temporada anterior, impulsionado pela conversão de pastagens degradadas em lavouras, especialmente nas regiões do Bolsão e do cone sul do estado.

Fatores do recorde

Estado Produção 2026 Produtividade Área plantada
Mato Grosso 43,2 Mt 3.520 kg/ha 12,3 Mha
Paraná 21,8 Mt 3.410 kg/ha 6,4 Mha
Mato Grosso do Sul 14,2 Mt 3.680 kg/ha 3,86 Mha
Goiás 14,0 Mt 3.390 kg/ha 4,1 Mha
Rio Grande do Sul 13,5 Mt 3.200 kg/ha 4,2 Mha

O resultado excepcional desta safra se deve a uma combinação de fatores climáticos, tecnológicos e de gestão que beneficiaram os produtores sul-mato-grossenses ao longo de todo o ciclo produtivo. Especialistas em agronomia apontam que 2025/2026 reuniu condições que raramente se apresentam simultaneamente.

Do ponto de vista climático, a distribuição regular de chuvas durante todo o período de desenvolvimento das culturas foi determinante. Diferente das duas safras anteriores, marcadas por veranicos intensos entre janeiro e fevereiro que reduziram significativamente a produtividade em várias regiões, a temporada 2025/2026 registrou precipitações regulares e bem distribuídas, sem períodos prolongados de estiagem durante as fases críticas de floração e enchimento de grãos.

"Tivemos o que chamamos de 'safra perfeita' em termos climáticos. As chuvas começaram no momento certo, em setembro, permitindo um plantio antecipado, e se mantiveram regulares até março, quando as colheitadeiras já estavam no campo", explicou o agrônomo e diretor técnico da Aprosoja-MS, destacando que o fenômeno La Niña, que havia prejudicado as safras de 2023 e 2024, deu lugar a condições de neutralidade climática favoráveis.

O investimento em tecnologia agrícola também foi fundamental. Pesquisa da Aprosoja-MS indica que 72% dos produtores sul-mato-grossenses utilizam agricultura de precisão com GPS e sensoriamento remoto, taxa que coloca o estado na vanguarda tecnológica do agronegócio brasileiro. A utilização de drones para pulverização e monitoramento de lavouras cresceu 45% em relação à safra anterior, permitindo aplicações mais eficientes de insumos e detecção precoce de pragas e doenças.

As novas cultivares desenvolvidas pela Embrapa e por empresas privadas de sementes, com maior tolerância ao estresse hídrico e resistência à ferrugem-asiática, contribuíram para manter a produtividade elevada mesmo em áreas que historicamente apresentam solos menos férteis. A adoção de inoculantes biológicos em substituição parcial a fertilizantes químicos também ganhou escala, reduzindo custos de produção em média 8% por hectare e melhorando a sustentabilidade dos sistemas produtivos.

Impacto econômico

O valor bruto da produção de soja em MS nesta safra é estimado em R$ 52 bilhões, representando um aumento real de 15% em relação à temporada anterior. A commodity é responsável por 35% do PIB agropecuário do estado e gera efeitos multiplicadores em toda a cadeia produtiva, desde a indústria de insumos até o setor de serviços nas cidades do interior.

O economista e pesquisador da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de MS, Dr. Marcos Silveira, destaca que o impacto vai muito além da porteira. "Para cada emprego direto na produção de soja, são gerados de quatro a cinco empregos indiretos em transporte, armazenagem, manutenção de máquinas, comércio e serviços. Uma safra recorde como esta injeta uma massa de recursos que aquece a economia de todo o interior do estado."

A cadeia logística também bateu recordes. O porto de Santos recebeu volume recorde de soja embarcada com origem em MS, e a ferrovia Malha Oeste transportou 2,8 milhões de toneladas do grão sul-mato-grossense, reduzindo a dependência do modal rodoviário. O investimento do setor privado em armazéns e silos cresceu 18% na última safra, adicionando 1,2 milhão de toneladas de capacidade estática ao estado.

Desafios e perspectivas

Apesar do resultado recorde, o setor enfrenta desafios estruturais que podem limitar o crescimento futuro. A logística de escoamento continua sendo o principal gargalo, com filas de caminhões de até 72 horas nos terminais ferroviários de Maracaju e Chapadão do Sul durante o pico da colheita. A capacidade de armazenagem do estado representa apenas 60% da produção, forçando produtores a vender o grão no pico da safra quando os preços tendem a ser mais baixos.

A questão ambiental também ganha relevância à medida que a área plantada se expande. O Código Florestal determina que propriedades rurais no bioma Cerrado (que cobre 61% do estado) mantenham no mínimo 20% da área como reserva legal. Organizações ambientais alertam que a conversão de pastagens degradadas — embora menos impactante que o desmatamento direto — precisa ser monitorada para garantir conformidade com a legislação e atender às exigências de mercados compradores cada vez mais exigentes em rastreabilidade socioambiental.

Para a próxima safra, as perspectivas são cautelosamente otimistas. O câmbio favorável, com o dólar acima de R$ 5,50, mantém a rentabilidade do produtor brasileiro. Porém, os custos de insumos, especialmente fertilizantes importados, seguem elevados, e as incertezas geopolíticas globais podem afetar a demanda chinesa — destino de 65% da soja sul-mato-grossense.

"O produtor de MS está capitalizado e tecnologicamente preparado. Se o clima colaborar novamente, podemos romper a barreira dos 15 milhões de toneladas na próxima safra e consolidar definitivamente MS como uma potência agropecuária global", projetou o presidente da Aprosoja-MS.

Tecnologia e sustentabilidade: o novo paradigma

A safra recorde também marca a consolidação de um novo paradigma produtivo em que tecnologia e sustentabilidade não são mais conceitos antagônicos, mas complementares. O sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), promovido pela Embrapa, ganhou escala significativa em MS, com 180 mil hectares operando nesse modelo — crescimento de 25% em relação à safra anterior. O ILPF permite que o mesmo hectare produza grãos, proteína animal e madeira em ciclos alternados, maximizando a rentabilidade por área e reduzindo a pressão por abertura de novas áreas.

O uso de bioinsumos — produtos biológicos que substituem parcialmente agrotóxicos e fertilizantes sintéticos — também experimentou crescimento expressivo. A área tratada com bioinsumos em MS saltou de 320 mil hectares em 2023/2024 para 780 mil hectares em 2025/2026, impulsionada tanto pela redução de custos (economia média de R$ 280 por hectare) quanto pela crescente exigência de mercados internacionais por produtos com menor carga química residual.

A agricultura regenerativa, que vai além da sustentabilidade ao buscar restaurar a saúde do solo, ganha adeptos entre os produtores mais visionários do estado. Práticas como plantio direto (já adotado em 92% da área de soja em MS), rotação de culturas com espécies de cobertura e uso de compostagem orgânica de resíduos agroindustriais estão contribuindo para o aumento do teor de matéria orgânica do solo — indicador que subiu de 2,8% para 3,4% em média nas áreas de produção intensiva nos últimos cinco anos, segundo dados do Laboratório de Solos da Embrapa Agropecuária Oeste.

"O produtor de MS entendeu que solo saudável é solo produtivo. A safra recorde não é apenas resultado do clima favorável — é consequência de duas décadas de investimento em conservação do solo, manejo integrado de pragas e adoção de tecnologias que potencializam a biologia natural do sistema agrícola", destacou o pesquisador da Embrapa, Dr. Fernando Macena, especialista em sistemas de produção sustentável.

💰 Safra Recorde no Seu Bolso

1

Valor bruto da produção

R$ 52 bilhões

2

Receita por hectare plantado

R$ 13.470/ha

3

Empregos na cadeia da soja

5 indiretos por 1 direto

4

Imposto gerado (ICMS estimado)

R$ 2,8 bilhões

Fonte: IBGE / Aprosoja-MS

❓ Perguntas Frequentes

Não, MS é o terceiro, atrás de Mato Grosso e Paraná. Mas a produtividade por hectare em MS (3.680 kg/ha) superou a média nacional em 12%.

65% é exportada para a China. O restante abastece a indústria nacional de óleos, farelos e rações.

A expansão recente se dá majoritariamente por conversão de pastagens degradadas, não por desmatamento direto. Porém, o monitoramento ambiental é essencial.

Com produtividade média de 3.680 kg/ha e preço de R$ 140/saca, a receita bruta gira em torno de R$ 8.500/ha antes dos custos.

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RA

Roberto Almeida

Repórter