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quinta-feira, 02 de abril de 2026
🏥 Saúde

Demanda por atendimento em CAPS de Campo Grande cresce 28% e fila chega a 40 dias

Rede de saúde mental da capital atende 4.800 pacientes por mês. Ansiedade e depressão lideram diagnósticos. Faltam psiquiatras no SUS.

Juliana Mendes6 min de leituraCampo Grande
Demanda por atendimento em CAPS de Campo Grande cresce 28% e fila chega a 40 dias

A rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Campo Grande registrou um aumento de 28% na demanda por atendimentos em 2025 em comparação com 2024, com a fila de espera para primeira consulta psiquiátrica chegando a 40 dias — quase o dobro dos 22 dias registrados no ano anterior. Os dados, compilados pela Secretaria Municipal de Saúde e confirmados pela Secretaria Estadual de Saúde (Sesau-MS), revelam uma crise silenciosa de saúde mental na capital sul-mato-grossense, agravada pela escassez de profissionais especialistas no SUS.

A dimensão da demanda

A rede de CAPS de Campo Grande é composta por 6 unidades: 3 CAPS II (atendimento a adultos com transtornos moderados a graves), 1 CAPSi (atendimento a crianças e adolescentes), 1 CAPS AD (especializado em álcool e drogas) e 1 CAPS III (funcionamento 24 horas, para situações de crise). Juntas, as 6 unidades atendem 4.800 pacientes por mês — volume que cresceu 28% sobre os 3.750 atendimentos mensais de 2024.

Indicador 2024 2025 Variação
Atendimentos mensais 3.750 4.800 +28%
Novos pacientes/mês 280 420 +50%
Fila de espera (1ª consulta) 22 dias 40 dias +82%
Internações de crise 68/mês 94/mês +38%
Tentativas de suicídio atendidas 18/mês 31/mês +72%
Psiquiatras no SUS de CG 14 14 0%

O dado mais alarmante é o aumento de 72% nas tentativas de suicídio atendidas pela rede — de 18 para 31 casos por mês. O CAPS III, único que funciona 24 horas, tornou-se o principal ponto de acolhimento para pessoas em crise suicida, mas opera no limite de sua capacidade, com apenas 8 leitos de observação para uma demanda que frequentemente excede 15 casos simultâneos.

O perfil dos pacientes

A análise dos prontuários eletrônicos dos CAPS de Campo Grande traça um perfil detalhado da crise de saúde mental:

Faixa etária: A maior demanda vem de adultos entre 25 e 44 anos (48%), seguidos por adolescentes de 12 a 17 anos (22%), adultos de 45 a 64 anos (18%) e idosos acima de 65 (12%). O crescimento mais acelerado é na faixa adolescente — com aumento de 45% em um ano.

Gênero: Mulheres representam 63% dos atendimentos, contra 37% de homens. No entanto, as tentativas de suicídio letais são proporcionalmente mais frequentes entre homens (72% dos óbitos), um padrão consistente com a literatura médica global.

Diagnósticos principais: Transtorno de ansiedade generalizada lidera com 38% dos diagnósticos, seguido por depressão (27%), transtorno de pânico (12%), dependência de álcool e drogas (11%), transtorno bipolar (7%) e esquizofrenia (5%).

A psiquiatra Dra. Renata Matos, coordenadora do CAPS III de Campo Grande, identifica dois fatores que explicam o aumento da demanda: "Há um efeito de pós-pandemia que ainda não se dissipou — a Covid-19 deixou sequelas psicológicas profundas, especialmente ansiedade e depressão. E há um efeito de destigmatização: mais pessoas estão buscando ajuda porque falar de saúde mental se tornou mais aceitável socialmente."

A escassez de profissionais

O gargalo fundamental da rede de saúde mental de Campo Grande é a falta de profissionais especializados, particularmente psiquiatras. A capital possui 14 psiquiatras no SUS — o mesmo número de 2024, apesar do aumento de 28% na demanda. A Organização Mundial de Saúde recomenda 1 psiquiatra para cada 10 mil habitantes. Com 920 mil habitantes, Campo Grande precisaria de 92 psiquiatras no SUS. Tem 14 — um déficit de 78 profissionais, ou 85%.

A situação é agravada pela discrepância entre o setor público e privado. Na rede particular, Campo Grande tem 64 psiquiatras — quatro vezes mais do que no SUS. A disparidade reflete a diferença salarial: um psiquiatra no SUS de Campo Grande recebe entre R$ 12 mil e R$ 16 mil por mês (dependendo da carga horária), enquanto no setor privado a remuneração varia de R$ 25 mil a R$ 45 mil.

"Não adianta abrir concurso se o salário não é competitivo. Os psiquiatras recém-formados vão naturalmente para o setor privado, onde ganham o dobro e trabalham com agenda própria. O SUS precisa oferecer condições que tornem a carreira pública atraente", analisou o secretário municipal de Saúde, Dr. José Roberto Costa.

As consequências da espera

Uma fila de 40 dias para primeiro atendimento psiquiátrico tem consequências clínicas graves. Pacientes com transtornos de ansiedade severa podem desenvolver agorafobia e isolamento social. Depressivos em espera correm risco de agravamento e tentativa de suicídio. Dependentes químicos sem tratamento imediato frequentemente abandonam a busca por ajuda.

O CAPS de Campo Grande tenta mitigar os efeitos da espera com um programa de "acolhimento de porta" — atendimento rápido por psicólogos e assistentes sociais na primeira visita, sem necessidade de agendamento prévio. O acolhimento avalia a gravidade do caso e classifica o paciente em três categorias: vermelho (atendimento psiquiátrico em 48 horas), amarelo (em 15 dias) e verde (na fila regular de 40 dias).

"O acolhimento de porta é um paliativo, não uma solução. Ele impede que os casos mais graves fiquem sem assistência, mas não resolve o problema de fundo, que é a falta de psiquiatras. Precisamos de um plano estrutural de longo prazo para a saúde mental", afirmou a psicóloga Ana Paula Ferreira, coordenadora do programa.

Propostas em discussão

A Secretaria Municipal de Saúde apresentou à Câmara de Vereadores um projeto de lei que cria um Programa Municipal de Saúde Mental com três eixos:

Eixo 1 — Contratação emergencial: Abertura de concurso público para 12 psiquiatras e 20 psicólogos, com remuneração competitiva (proposta de R$ 22 mil para psiquiatras com carga de 30h semanais) e gratificação por produtividade.

Eixo 2 — Telemedicina: Implantação de um programa de teleconsulta psiquiátrica em parceria com a UFMS e o Hospital Universitário, permitindo atendimentos remotos para pacientes de bairros periféricos e da zona rural.

Eixo 3 — Prevenção nas escolas: Implementação de programas de educação emocional em 120 escolas municipais, com capacitação de professores para identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico.

O projeto está em tramitação e deve ser votado até maio de 2026. O custo estimado de implementação é de R$ 8,5 milhões por ano — valor que, segundo o secretário, é "uma fração do custo das internações hospitalares e das vidas perdidas por falta de atendimento preventivo".

O CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece atendimento 24 horas pelo telefone 188 e pelo chat em cvv.org.br. O CAPS III de Campo Grande atende emergências psiquiátricas 24 horas pelo telefone (67) 3314-3460.

💰 O custo da crise de saúde mental para o SUS

1

Custo médio de tratamento/paciente/ano

R$ 4.200

2

Gasto anual dos 6 CAPS de CG

R$ 18,4 milhões

3

Déficit de psiquiatras no SUS/CG

12 profissionais

4

Dias de espera para 1º atendimento

40 dias

Fonte: Sesau-MS / Secretaria Municipal de Saúde / Datasus

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Juliana Mendes

Repórter