Safra de soja em MS bate recorde com 14,2 milhões de toneladas
Produção supera em 8% o ciclo anterior. Chuvas regulares e expansão de área plantada impulsionam resultado histórico no estado.

Mato Grosso do Sul colheu 14,2 milhões de toneladas de soja no ciclo 2025/2026 — recorde absoluto para o estado e um salto de 8,4% sobre as 13,1 milhões de toneladas da safra anterior. Os dados foram divulgados pela Aprosoja-MS na segunda-feira, 9 de fevereiro, com base no levantamento de campo encerrado na última semana de janeiro. A Conab deve confirmar os números no relatório oficial previsto para o dia 13.
A produtividade média ficou em 58,3 sacas por hectare, contra 54,7 sacas no ciclo passado. A área plantada cresceu 3,1%, alcançando 4,06 milhões de hectares — o estado é o quinto maior produtor de soja do Brasil, atrás de Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás.
O que explica o recorde
Três fatores convergiram. O primeiro e mais decisivo: chuvas regulares entre outubro e janeiro. A precipitação acumulada no período ficou 12% acima da média histórica na região sul do estado, justamente onde se concentra a maior área de soja. Dourados registrou 847 mm entre outubro e janeiro, contra uma média de 756 mm.
"Não tivemos veranico. Isso é raro. Nos últimos cinco ciclos, sempre teve uma janela de 15 a 20 dias sem chuva em dezembro ou janeiro que derrubava a produtividade. Esse ano, não", explicou o engenheiro agrônomo Cláudio Spadotto, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados.
O segundo fator foi a adoção acelerada de cultivares de ciclo superprecoce, que maturam em 95 a 100 dias. Essas variedades permitem plantar mais cedo — em setembro — e colher antes do período mais chuvoso de fevereiro, reduzindo perdas por excesso de umidade no grão. Segundo a Aprosoja, 38% da área plantada em MS usou cultivares superprecoces neste ciclo, contra 24% no anterior.
O terceiro fator é a expansão de área sobre pastagens degradadas. Nos últimos três anos, 280 mil hectares de pasto foram convertidos em lavoura no estado, segundo dados do MapBiomas. A conversão é mais intensa nos municípios de Ribas do Rio Pardo, Água Clara e Três Lagoas, na região leste.
Preços e rentabilidade
A notícia boa da produção esbarra na realidade dos preços. A saca de 60 kg estava cotada a R$ 118 em Dourados na primeira semana de fevereiro — 14% abaixo dos R$ 137 do mesmo período de 2025. A queda reflete a supersafra brasileira (estimada em 170 milhões de toneladas pela Conab) e a desaceleração das importações chinesas no primeiro trimestre.
"Produtor que travou preço lá em agosto, a R$ 130, tá tranquilo. Quem deixou pra vender agora, tá apertado. O custo de produção subiu 9% com fertilizante e diesel, e o preço caiu. A conta não fecha pra todo mundo", disse Enrique Neto, presidente da Aprosoja-MS.
Na ponta do lápis: o custo médio de produção em MS ficou em R$ 4.820 por hectare neste ciclo. Com produtividade de 58,3 sacas e preço de R$ 118, a receita bruta é de R$ 6.879 por hectare. Sobram R$ 2.059 — margem de 30%. Parece confortável, mas é a menor margem em quatro safras. Em 2022/2023, quando a saca bateu R$ 168, a margem chegou a 52%.
Logística: o gargalo que não muda
A safra recorde pressiona uma infraestrutura que já operava no limite. O principal corredor de escoamento — a BR-163, de Dourados até o porto de Paranaguá — registrou filas de caminhões de até 18 km na segunda semana de fevereiro, segundo a Polícia Rodoviária Federal.
O frete rodoviário de Dourados a Paranaguá saltou de R$ 185 para R$ 238 por tonelada entre dezembro e fevereiro — aumento de 28,6%. Para Santos, o frete saiu de R$ 210 para R$ 267.
"Cada real a mais no frete é real a menos no bolso do produtor. A gente produz como primeiro mundo e escoa como terceiro", reclamou o produtor Antônio Carlos Vidotto, que cultiva 2.800 hectares em Maracaju.
A Rumo Logística, que opera a malha ferroviária no estado, informou que transportou 1,2 milhão de toneladas de soja de MS entre janeiro e fevereiro, volume 15% superior ao mesmo período do ano passado. A empresa inaugurou em janeiro um novo terminal de transbordo em Chapadão do Sul, com capacidade para 800 mil toneladas por ano.
Milho safrinha: a aposta que vem a seguir
Com a colheita da soja adiantada — 72% da área já foi colhida até 7 de fevereiro —, os produtores correm para plantar o milho safrinha dentro da janela ideal, que em MS vai até 28 de fevereiro. A Aprosoja estima que 2,1 milhões de hectares serão plantados com milho segunda safra, volume estável em relação ao ano passado.
O milho safrinha é a segunda fonte de renda do produtor sul-mato-grossense e depende diretamente do calendário da soja. Quanto mais cedo a soja sai, mais cedo o milho entra — e maior a chance de escapar das geadas de junho e julho.
"Esse ano a janela tá boa. Quem colheu soja até o fim de janeiro já plantou milho. Tá tudo dentro do prazo", avaliou Spadotto, da Embrapa.
O preço do milho, diferente da soja, está em alta: R$ 62 a saca em Dourados, 22% acima do mesmo período de 2025. A demanda de rações para a pecuária e as exportações para o Egito e o Irã sustentam a cotação.
Impacto na economia do estado
A safra recorde de soja deve injetar R$ 16,7 bilhões na economia de MS, considerando o preço médio de R$ 118 por saca e a produção de 14,2 milhões de toneladas (236,7 milhões de sacas). O valor é 5,6% inferior ao da safra passada em termos nominais, por causa da queda nos preços, mas o volume físico recorde compensa parcialmente.
O agronegócio responde por 32% do PIB sul-mato-grossense e emprega direta e indiretamente 340 mil pessoas, segundo a Famasul. Cada ponto percentual de aumento na produção agrícola gera, em média, 1.200 empregos indiretos no comércio e serviços das cidades do interior.
Na Rua 14 de Julho, em Dourados, o movimento nas revendas de máquinas agrícolas já reflete a safra boa. "Janeiro e fevereiro são os meses de decisão de compra. Vendemos 14 colheitadeiras só neste mês. Ano passado foram 9 no mesmo período", contou Rodrigo Yamashita, gerente de uma concessionária John Deere.
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Fonte: Aprosoja-MS / Conab / IBGE
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Marcos Vinícius Borges
Repórter
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