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quinta-feira, 02 de abril de 2026
🌾 Agro

Safra de soja em MS bate recorde com 14,2 milhões de toneladas

Produção supera em 8% o ciclo anterior. Chuvas regulares e expansão de área plantada impulsionam resultado histórico no estado.

Marcos Vinícius Borges7 min de leituraDourados
Safra de soja em MS bate recorde com 14,2 milhões de toneladas

Mato Grosso do Sul colheu 14,2 milhões de toneladas de soja no ciclo 2025/2026 — recorde absoluto para o estado e um salto de 8,4% sobre as 13,1 milhões de toneladas da safra anterior. Os dados foram divulgados pela Aprosoja-MS na segunda-feira, 9 de fevereiro, com base no levantamento de campo encerrado na última semana de janeiro. A Conab deve confirmar os números no relatório oficial previsto para o dia 13.

A produtividade média ficou em 58,3 sacas por hectare, contra 54,7 sacas no ciclo passado. A área plantada cresceu 3,1%, alcançando 4,06 milhões de hectares — o estado é o quinto maior produtor de soja do Brasil, atrás de Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás.

O que explica o recorde

Três fatores convergiram. O primeiro e mais decisivo: chuvas regulares entre outubro e janeiro. A precipitação acumulada no período ficou 12% acima da média histórica na região sul do estado, justamente onde se concentra a maior área de soja. Dourados registrou 847 mm entre outubro e janeiro, contra uma média de 756 mm.

"Não tivemos veranico. Isso é raro. Nos últimos cinco ciclos, sempre teve uma janela de 15 a 20 dias sem chuva em dezembro ou janeiro que derrubava a produtividade. Esse ano, não", explicou o engenheiro agrônomo Cláudio Spadotto, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados.

O segundo fator foi a adoção acelerada de cultivares de ciclo superprecoce, que maturam em 95 a 100 dias. Essas variedades permitem plantar mais cedo — em setembro — e colher antes do período mais chuvoso de fevereiro, reduzindo perdas por excesso de umidade no grão. Segundo a Aprosoja, 38% da área plantada em MS usou cultivares superprecoces neste ciclo, contra 24% no anterior.

O terceiro fator é a expansão de área sobre pastagens degradadas. Nos últimos três anos, 280 mil hectares de pasto foram convertidos em lavoura no estado, segundo dados do MapBiomas. A conversão é mais intensa nos municípios de Ribas do Rio Pardo, Água Clara e Três Lagoas, na região leste.

Preços e rentabilidade

A notícia boa da produção esbarra na realidade dos preços. A saca de 60 kg estava cotada a R$ 118 em Dourados na primeira semana de fevereiro — 14% abaixo dos R$ 137 do mesmo período de 2025. A queda reflete a supersafra brasileira (estimada em 170 milhões de toneladas pela Conab) e a desaceleração das importações chinesas no primeiro trimestre.

"Produtor que travou preço lá em agosto, a R$ 130, tá tranquilo. Quem deixou pra vender agora, tá apertado. O custo de produção subiu 9% com fertilizante e diesel, e o preço caiu. A conta não fecha pra todo mundo", disse Enrique Neto, presidente da Aprosoja-MS.

Na ponta do lápis: o custo médio de produção em MS ficou em R$ 4.820 por hectare neste ciclo. Com produtividade de 58,3 sacas e preço de R$ 118, a receita bruta é de R$ 6.879 por hectare. Sobram R$ 2.059 — margem de 30%. Parece confortável, mas é a menor margem em quatro safras. Em 2022/2023, quando a saca bateu R$ 168, a margem chegou a 52%.

Logística: o gargalo que não muda

A safra recorde pressiona uma infraestrutura que já operava no limite. O principal corredor de escoamento — a BR-163, de Dourados até o porto de Paranaguá — registrou filas de caminhões de até 18 km na segunda semana de fevereiro, segundo a Polícia Rodoviária Federal.

O frete rodoviário de Dourados a Paranaguá saltou de R$ 185 para R$ 238 por tonelada entre dezembro e fevereiro — aumento de 28,6%. Para Santos, o frete saiu de R$ 210 para R$ 267.

"Cada real a mais no frete é real a menos no bolso do produtor. A gente produz como primeiro mundo e escoa como terceiro", reclamou o produtor Antônio Carlos Vidotto, que cultiva 2.800 hectares em Maracaju.

A Rumo Logística, que opera a malha ferroviária no estado, informou que transportou 1,2 milhão de toneladas de soja de MS entre janeiro e fevereiro, volume 15% superior ao mesmo período do ano passado. A empresa inaugurou em janeiro um novo terminal de transbordo em Chapadão do Sul, com capacidade para 800 mil toneladas por ano.

Milho safrinha: a aposta que vem a seguir

Com a colheita da soja adiantada — 72% da área já foi colhida até 7 de fevereiro —, os produtores correm para plantar o milho safrinha dentro da janela ideal, que em MS vai até 28 de fevereiro. A Aprosoja estima que 2,1 milhões de hectares serão plantados com milho segunda safra, volume estável em relação ao ano passado.

O milho safrinha é a segunda fonte de renda do produtor sul-mato-grossense e depende diretamente do calendário da soja. Quanto mais cedo a soja sai, mais cedo o milho entra — e maior a chance de escapar das geadas de junho e julho.

"Esse ano a janela tá boa. Quem colheu soja até o fim de janeiro já plantou milho. Tá tudo dentro do prazo", avaliou Spadotto, da Embrapa.

O preço do milho, diferente da soja, está em alta: R$ 62 a saca em Dourados, 22% acima do mesmo período de 2025. A demanda de rações para a pecuária e as exportações para o Egito e o Irã sustentam a cotação.

Impacto na economia do estado

A safra recorde de soja deve injetar R$ 16,7 bilhões na economia de MS, considerando o preço médio de R$ 118 por saca e a produção de 14,2 milhões de toneladas (236,7 milhões de sacas). O valor é 5,6% inferior ao da safra passada em termos nominais, por causa da queda nos preços, mas o volume físico recorde compensa parcialmente.

O agronegócio responde por 32% do PIB sul-mato-grossense e emprega direta e indiretamente 340 mil pessoas, segundo a Famasul. Cada ponto percentual de aumento na produção agrícola gera, em média, 1.200 empregos indiretos no comércio e serviços das cidades do interior.

Na Rua 14 de Julho, em Dourados, o movimento nas revendas de máquinas agrícolas já reflete a safra boa. "Janeiro e fevereiro são os meses de decisão de compra. Vendemos 14 colheitadeiras só neste mês. Ano passado foram 9 no mesmo período", contou Rodrigo Yamashita, gerente de uma concessionária John Deere.

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Fonte: Aprosoja-MS / Conab / IBGE

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Marcos Vinícius Borges

Repórter