Tarifa de ônibus em Campo Grande sobe para R$ 5,20 e passageiros protestam
Reajuste de 8,3% entra em vigor em março. Consórcio alega déficit de R$ 47 milhões. Prefeitura promete subsídio, mas não define valor.

A tarifa do transporte coletivo de Campo Grande subiu de R$ 4,80 para R$ 5,20 a partir de 1º de março — reajuste de 8,3%, acima da inflação acumulada de 5,2%. A decisão foi publicada pela Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) em 25 de fevereiro, após audiência pública que reuniu 42 pessoas no auditório da Câmara Municipal.
Na manhã de segunda-feira, 3 de março, cerca de 200 passageiros protestaram no Terminal Morenão, o maior da cidade, com cartazes e gritos de "R$ 5,20 é roubo". A PM acompanhou o protesto, que durou 2 horas e não teve incidentes.
Por que subiu
O Consórcio Guaicurus, que opera o transporte coletivo de Campo Grande desde 2013, apresentou à Agetran planilha de custos mostrando déficit operacional de R$ 47 milhões em 2025. Os principais vilões: diesel (alta de 8,4% no ano), salários dos motoristas (reajuste de 7,2% em convenção coletiva) e manutenção da frota (peças importadas encarecidas pelo dólar).
A demanda de passageiros caiu 18% desde 2019 — de 142 milhões de viagens por ano para 116 milhões. A pandemia acelerou a migração para motos, carros de aplicativo e bicicletas. Menos passageiro, menos receita, mais pressão sobre a tarifa.
"O sistema de transporte público de Campo Grande é deficitário. Não tem como manter tarifa congelada com custo subindo e passageiro sumindo. Alguém paga a conta — ou o passageiro, ou o contribuinte", disse o diretor do Consórcio Guaicurus, Augusto Mariano.
A Agetran calculou que a tarifa de equilíbrio — aquela que cobre todos os custos sem subsídio — seria de R$ 6,14. A diferença entre R$ 5,20 e R$ 6,14 (R$ 0,94 por passagem) deveria ser coberta por subsídio municipal. A prefeitura prometeu o subsídio, mas não definiu valor nem fonte orçamentária.
O impacto no bolso
Para quem usa ônibus duas vezes por dia, 22 dias por mês, o gasto mensal com transporte sobe de R$ 211,20 para R$ 228,80 — aumento de R$ 17,60. Parece pouco. Não é.
O salário mínimo é R$ 1.518. A passagem de ônibus consome 15,1% dele — acima da média nacional de 12,8%. Para uma família com dois trabalhadores que usam ônibus, o gasto mensal com transporte chega a R$ 457,60 — 30% de um salário mínimo.
"Eu ganho R$ 1.800 de faxineira. Gasto R$ 228 de ônibus, R$ 700 de aluguel, R$ 400 de comida. Sobra R$ 472 pra tudo o resto — luz, água, remédio, roupa. Agora sobra R$ 454. Cada real conta", calculou Dona Francisca, 48 anos, moradora do Jardim Noroeste, no protesto do Terminal Morenão.
A qualidade do serviço
O reajuste seria mais palatável se o serviço fosse bom. Não é. A frota do Consórcio Guaicurus tem 478 ônibus, dos quais 38% têm mais de 10 anos de uso. O ar-condicionado — obrigatório por lei municipal desde 2018 — funciona em 72% dos veículos. Os outros 28% circulam com janelas abertas, no calor de 38 graus.
O intervalo médio entre ônibus nos horários de pico é de 12 minutos nas linhas troncais e 25 minutos nas alimentadoras. Nos fins de semana, o intervalo das alimentadoras chega a 45 minutos. Moradores de bairros periféricos como Noroeste, Aero Rancho e Moreninha relatam esperas de até 1 hora.
"Eu saio de casa às 5h30 pra chegar no trabalho às 7h30. São 2 horas de ônibus pra fazer 14 km. De carro, leva 20 minutos. Quem pode, compra moto. Quem não pode, sofre", disse o auxiliar de serviços gerais Reginaldo Alves, 33 anos, morador da Moreninha III.
A Agetran multou o Consórcio Guaicurus 84 vezes em 2025 por descumprimento de horários, veículos sem ar-condicionado e superlotação. O valor total das multas: R$ 1,2 milhão. O consórcio recorreu de todas e pagou R$ 340 mil até o momento.
Alternativas em discussão
A Câmara Municipal debate dois projetos relacionados ao transporte. O primeiro, do vereador Professor André, propõe tarifa zero para estudantes da rede pública — custo estimado de R$ 18 milhões por ano, bancado pelo município. O segundo, da vereadora Camila Jara, propõe a criação de um fundo municipal de transporte alimentado por multas de trânsito, para subsidiar a tarifa.
O prefeito Adriane Lopes disse que "está estudando as propostas" e que "o transporte público é prioridade". Não deu prazo.
O Consórcio Guaicurus tem contrato até 2033. A renovação ou relicitação será o momento de rediscutir o modelo. Especialistas defendem a separação entre operação (privada) e gestão da frota (pública), modelo adotado em Curitiba e Bogotá, que reduz custos e melhora a qualidade.
No Terminal Morenão, às 18h de uma sexta-feira, a fila para o ônibus da linha 070 (Moreninha) tinha 84 pessoas. O ônibus chegou lotado. Metade da fila ficou. O próximo, em 18 minutos. Uma mulher com sacolas de supermercado sentou no meio-fio. "R$ 5,20 pra isso."
Alternativas ao reajuste
O Movimento Passe Livre de Campo Grande propõe alternativas ao modelo de financiamento exclusivo por tarifa: criação de taxa de conservação viária para veículos individuais, destinação de percentual do IPVA para subsídio do transporte coletivo e implementação de faixas exclusivas de ônibus — que aumentam a velocidade operacional e reduzem custos. Curitiba e Goiânia já adotam modelos mistos de financiamento que mantêm a tarifa abaixo da inflação.
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💰 Transporte público de CG
Nova tarifa
R$ 4,95
Reajuste
+7,6%
Passageiros/dia
280 mil
Frota atual
480 ônibus (-140 do ideal)
Fonte: Agetran / Consórcio Guaicurus / Prefeitura de Campo Grande
❓ Perguntas Frequentes
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Juliana Mendes
Repórter
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