Projeto de trem turístico entre Miranda e Bonito recebe aval do governo
Ferrovia desativada de 92 km será reativada para turismo. Investimento de R$ 145 milhões com concessão privada. Operação prevista para 2028.

O governo de Mato Grosso do Sul assinou na segunda-feira, 16 de fevereiro, protocolo de intenções para reativar o trecho ferroviário entre Miranda e Bonito — 92 km de trilhos desativados desde 1996 — como ferrovia turística. O projeto prevê investimento de R$ 145 milhões via concessão privada por 30 anos, com operação estimada para o segundo semestre de 2028.
O trecho faz parte da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, construída entre 1912 e 1914, que ligava Bauru (SP) a Corumbá. A linha foi desativada progressivamente a partir dos anos 1990, quando o transporte ferroviário de carga migrou para a malha sul. Os trilhos entre Miranda e Bonito estão abandonados há 30 anos, cobertos de vegetação, mas a infraestrutura básica — leito, pontes e túneis — permanece.
O traçado e a experiência
O trem partirá de Miranda, cruzará a Serra da Bodoquena por dentro — passando por 3 túneis escavados na rocha no início do século XX — e descerá até Bonito, com paradas em dois mirantes naturais e uma estação intermediária na vila de Guaicurus.
A viagem de 92 km levará 3 horas e meia, a uma velocidade média de 30 km/h — lenta de propósito. O objetivo não é transporte, é contemplação. O trecho atravessa um dos cenários mais espetaculares de MS: a transição entre o Pantanal e a Serra da Bodoquena, com rios cristalinos, paredões de calcário, mata atlântica de encosta e cerrado de altitude.
"É o trecho ferroviário mais bonito do Brasil que ninguém conhece. Os túneis da serra foram escavados à mão por trabalhadores no início do século passado. As pontes de ferro sobre os rios são obras de engenharia que merecem ser vistas", disse o historiador Valmir Corrêa, professor aposentado da UFMS e autor do livro "Trilhos do Pantanal".
O trem terá 6 vagões panorâmicos com teto de vidro, capacidade para 240 passageiros por viagem, e operará 2 viagens por dia (ida e volta). O vagão-restaurante servirá pratos da culinária pantaneira — arroz carreteiro, caldo de piranha, chipa e sobá.
O modelo de negócio
A concessão será licitada pela ANTT no segundo semestre de 2026. O concessionário privado investirá R$ 145 milhões na recuperação dos trilhos, pontes e túneis, na construção de estações em Miranda e Bonito, na aquisição dos vagões e na operação por 30 anos.
A receita virá da venda de passagens (preço estimado: R$ 280 por pessoa, ida) e de serviços a bordo (gastronomia, loja de souvenirs). A projeção é de 180 mil passageiros por ano — 60% da capacidade máxima de 300 mil.
O governo estadual entra com a cessão do leito ferroviário (que pertence à União, mas está sob gestão da Rumo Logística, que abriu mão do trecho em 2024) e com incentivos fiscais: isenção de ICMS sobre a passagem por 15 anos.
"O trem não compete com o ônibus ou o carro. Ninguém vai pegar trem pra ir mais rápido. Vai pegar pra ir mais bonito. É produto turístico, não transporte", explicou o secretário de Turismo, Bruno Wendling.
Referências internacionais
O projeto se inspira em ferrovias turísticas de sucesso: o Trem do Corcovado (Rio de Janeiro), o Bernina Express (Suíça), o Rocky Mountaineer (Canadá) e o Belmond Hiram Bingham (Peru, que liga Cusco a Machu Picchu).
O Bernina Express, que percorre 144 km nos Alpes suíços em 4 horas, transporta 400 mil turistas por ano e fatura US$ 48 milhões. O Rocky Mountaineer, no Canadá, cobra US$ 1.500 por pessoa para um trecho de 2 dias e tem lista de espera de 6 meses.
"O potencial de MS é comparável. A Serra da Bodoquena não é os Alpes, mas tem beleza única. E o preço de R$ 280 é acessível — o Bernina cobra 150 euros", comparou o consultor de turismo Ricardo Freire, do blog Viaje na Viagem, que visitou o trecho a convite do governo.
Desafios técnicos
A recuperação dos trilhos é o maior desafio. Dos 92 km, 34 km precisam de substituição completa dos dormentes (de madeira, apodrecidos) e dos trilhos (corroídos). As 7 pontes metálicas precisam de reforço estrutural. Os 3 túneis precisam de impermeabilização e iluminação.
O engenheiro ferroviário Dr. Paulo Sérgio Marques, contratado pelo governo para avaliar a viabilidade técnica, classificou a obra como "complexa, mas factível". "A base do leito está preservada. O que precisa é trocar o que está por cima. É como reformar uma casa — a fundação é boa, o telhado que caiu."
O prazo de 24 meses para a obra é considerado apertado por especialistas. "Ferrovia em serra, com túnel e ponte, não é obra simples. Eu diria 30 a 36 meses, sendo realista", ponderou Marques.
Impacto em Miranda e Bonito
Miranda, cidade de 29 mil habitantes que vive de pecuária e pesca, ganharia uma nova vocação econômica. A estação de trem, um prédio histórico de 1914 tombado pelo patrimônio estadual, seria restaurada e transformada em centro de visitantes com museu ferroviário, loja de artesanato e restaurante.
"Miranda é passagem. O turista passa por aqui indo pra Bonito e não para. Com o trem, Miranda vira destino. O cara chega de manhã, almoça, pega o trem à tarde, dorme em Bonito. Ou o contrário", projetou o prefeito de Miranda, Edson Moraes.
Bonito, que já recebe 310 mil turistas por ano, ganharia mais um atrativo — e um diferencial competitivo sobre destinos concorrentes. "Nenhum destino de ecoturismo no Brasil tem trem panorâmico. Bonito teria o primeiro. Isso é marketing que dinheiro não compra", disse Wendling.
Na estação abandonada de Miranda, o mato crescia entre os trilhos. Uma placa de ferro, enferrujada mas legível, dizia: "Estrada de Ferro Noroeste do Brasil — Miranda — Altitude 137m". Um lagarto tomava sol sobre o trilho. Em dois anos, se o projeto vingar, um trem passará por ali. O lagarto terá que encontrar outro lugar.
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Fonte: Governo de MS / ANTT / Semadesc / Rumo Logística
❓ Perguntas Frequentes
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Um trem turístico no Pantanal seria viável?
Marcos Vinícius Borges
Repórter
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