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quinta-feira, 02 de abril de 2026
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Onça-pintada é atropelada na BR-262 em Bonito e morre no local

Animal de 80 kg foi atingido por caminhão na madrugada. É o 3º caso na mesma rodovia em 2026. Ambientalistas pedem passagens de fauna.

Juliana Mendes6 min de leituraBonito
Onça-pintada é atropelada na BR-262 em Bonito e morre no local

Uma onça-pintada fêmea adulta, pesando aproximadamente 80 quilos, foi atropelada e morreu na madrugada de sexta-feira, 21 de março de 2026, no km 274 da BR-262, trecho entre Miranda e Bonito, no sudoeste de Mato Grosso do Sul. O animal foi atingido por um caminhão bitrem que transportava soja e morreu no local antes da chegada da equipe da Polícia Militar Ambiental (PMA). É o terceiro atropelamento fatal de onça-pintada na mesma rodovia em apenas três meses de 2026 — um ritmo que pode tornar este o ano mais letal para a espécie em rodovias de MS.

O registro do atropelamento

O motorista do caminhão, identificado como J.R.M., 48 anos, natural de Naviraí, relatou à PMA que o atropelamento ocorreu por volta das 3h40 da madrugada, quando a onça "surgiu repentinamente" na pista ao cruzar de uma área de vegetação nativa para uma fazenda do lado oposto. O veículo trafegava a 80 km/h — velocidade permitida para caminhões naquele trecho — e o motorista disse que não houve tempo de frear.

A carcaça do animal foi recolhida pela equipe do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio) e transportada para o Laboratório de Patologia Veterinária da UFMS para necropsia. O exame confirmou morte por politraumatismo (múltiplas fraturas e hemorragia interna). A fêmea não estava prenhe.

O animal não portava colar GPS de rastreamento — o que dificulta a identificação individual. No entanto, o padrão de rosetas (manchas) foi fotografado e será comparado com o banco de dados do Projeto Onçafari e do ICMBio para verificar se o indivíduo era monitorado por programas de pesquisa.

A BR-262: corredor da morte

A BR-262, que liga Corumbá a Três Lagoas atravessando o Pantanal e a Serra da Bodoquena, é considerada a rodovia mais letal para a fauna silvestre do Brasil. Monitoramento realizado pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) entre 2019 e 2025 contabilizou aproximadamente 4.200 animais atropelados por ano no trecho de 400 km entre Miranda e Três Lagoas — incluindo mamíferos, aves, répteis e anfíbios.

Espécie Atropelamentos/ano (média) Status de conservação
Capivara 820 Pouco preocupante
Tamanduá-bandeira 180 Vulnerável
Quati 340 Pouco preocupante
Veado-campeiro 120 Vulnerável
Onça-pintada 8 Vulnerável
Onça-parda 12 Pouco preocupante
Anta 14 Vulnerável
Jaritataca 380 Pouco preocupante
Tatu-galinha 640 Pouco preocupante
Serpentes diversas 780 Variável

A onça-pintada, como predador de topo da cadeia alimentar, é a espécie cuja perda tem maior impacto ecológico. Cada indivíduo adulto atropelado representa uma perda genética significativa para a população do Pantanal.

Em 2025, 8 onças-pintadas foram mortas em rodovias de MS — sendo 5 na BR-262, 2 na MS-262 e 1 na BR-267. Se o ritmo de 2026 (3 mortes em 3 meses) se mantiver, o ano pode superar em muito o recorde negativo de 2025.

A falha das passagens de fauna

O DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) construiu 2 passagens de fauna no trecho mais crítico da BR-262 (entre Miranda e Guia Lopes da Laguna) em 2018. As passagens — túneis de concreto de 3 metros de diâmetro instalados sob a rodovia — foram posicionadas em pontos identificados pelo ICMBio como corredores de deslocamento da fauna.

Monitoramento por câmeras trap do ICMBio confirmou que as passagens são eficazes quando existem: animais como antas, tamanduás e capivaras utilizam os túneis regularmente. No entanto, onças-pintadas — que são mais cautelosas e exigem passagens maiores — raramente utilizam as estruturas de 3 metros. A recomendação técnica é de passagens com no mínimo 5 metros de largura e 4 metros de altura para felinos de grande porte.

O Cenap/ICMBio recomendou ao DNIT em 2023 a instalação de pelo menos 12 passagens de fauna nos 120 km mais críticos da BR-262 — com custo estimado de R$ 14 milhões. Três anos depois, apenas as 2 passagens originais estão em operação. O DNIT informou, em resposta ao Foco do Estado, que "o projeto executivo para novas passagens está em fase de licitação, com previsão de contratação no segundo semestre de 2026".

A campanha pela redução de velocidade

Ambientalistas e pesquisadores defendem que, além das passagens de fauna, a redução da velocidade máxima permitida nos trechos críticos — de 80 km/h para 60 km/h — seria uma medida imediata e de baixo custo que poderia salvar dezenas de animais por ano.

Estudos internacionais demonstram que a redução de 80 para 60 km/h diminui a probabilidade de atropelamento fatal em 45%, por dar mais tempo ao motorista para visualizar o animal e frear, além de reduzir a energia cinética do impacto.

O presidente do Instituto Onça-Pintada, Dr. Leandro Silveira, reforça: "Uma onça-pintada vale mais viva do que morta — não apenas ecologicamente, mas economicamente. Cada onça que um turista fotografa no Pantanal gera milhares de reais em turismo. Cada onça atropelada é uma perda para o ecossistema e para a economia."

A PMA orientou o motorista do caminhão e registrou o boletim de ocorrência ambiental. O caso será encaminhado ao ICMBio para compor o banco de dados de atropelamentos de fauna e fundamentar a cobrança por novas passagens ao DNIT.

💰 O custo da omissão rodoviária

1

Animais atropelados na BR-262/ano

4.200 exemplares

2

Onças mortas em rodovias de MS (2025)

8 indivíduos

3

Custo de uma passagem de fauna

R$ 200 mil a R$ 1,5 mi

4

Valor ecológico de uma onça

Inestimável (topo da cadeia)

Fonte: PMA / ICMBio / Cenap / DNIT

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Juliana Mendes

Repórter