Onça-pintada é atropelada na BR-262 em Bonito e morre no local
Animal de 80 kg foi atingido por caminhão na madrugada. É o 3º caso na mesma rodovia em 2026. Ambientalistas pedem passagens de fauna.

Uma onça-pintada fêmea adulta, pesando aproximadamente 80 quilos, foi atropelada e morreu na madrugada de sexta-feira, 21 de março de 2026, no km 274 da BR-262, trecho entre Miranda e Bonito, no sudoeste de Mato Grosso do Sul. O animal foi atingido por um caminhão bitrem que transportava soja e morreu no local antes da chegada da equipe da Polícia Militar Ambiental (PMA). É o terceiro atropelamento fatal de onça-pintada na mesma rodovia em apenas três meses de 2026 — um ritmo que pode tornar este o ano mais letal para a espécie em rodovias de MS.
O registro do atropelamento
O motorista do caminhão, identificado como J.R.M., 48 anos, natural de Naviraí, relatou à PMA que o atropelamento ocorreu por volta das 3h40 da madrugada, quando a onça "surgiu repentinamente" na pista ao cruzar de uma área de vegetação nativa para uma fazenda do lado oposto. O veículo trafegava a 80 km/h — velocidade permitida para caminhões naquele trecho — e o motorista disse que não houve tempo de frear.
A carcaça do animal foi recolhida pela equipe do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio) e transportada para o Laboratório de Patologia Veterinária da UFMS para necropsia. O exame confirmou morte por politraumatismo (múltiplas fraturas e hemorragia interna). A fêmea não estava prenhe.
O animal não portava colar GPS de rastreamento — o que dificulta a identificação individual. No entanto, o padrão de rosetas (manchas) foi fotografado e será comparado com o banco de dados do Projeto Onçafari e do ICMBio para verificar se o indivíduo era monitorado por programas de pesquisa.
A BR-262: corredor da morte
A BR-262, que liga Corumbá a Três Lagoas atravessando o Pantanal e a Serra da Bodoquena, é considerada a rodovia mais letal para a fauna silvestre do Brasil. Monitoramento realizado pelo Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) entre 2019 e 2025 contabilizou aproximadamente 4.200 animais atropelados por ano no trecho de 400 km entre Miranda e Três Lagoas — incluindo mamíferos, aves, répteis e anfíbios.
| Espécie | Atropelamentos/ano (média) | Status de conservação |
|---|---|---|
| Capivara | 820 | Pouco preocupante |
| Tamanduá-bandeira | 180 | Vulnerável |
| Quati | 340 | Pouco preocupante |
| Veado-campeiro | 120 | Vulnerável |
| Onça-pintada | 8 | Vulnerável |
| Onça-parda | 12 | Pouco preocupante |
| Anta | 14 | Vulnerável |
| Jaritataca | 380 | Pouco preocupante |
| Tatu-galinha | 640 | Pouco preocupante |
| Serpentes diversas | 780 | Variável |
A onça-pintada, como predador de topo da cadeia alimentar, é a espécie cuja perda tem maior impacto ecológico. Cada indivíduo adulto atropelado representa uma perda genética significativa para a população do Pantanal.
Em 2025, 8 onças-pintadas foram mortas em rodovias de MS — sendo 5 na BR-262, 2 na MS-262 e 1 na BR-267. Se o ritmo de 2026 (3 mortes em 3 meses) se mantiver, o ano pode superar em muito o recorde negativo de 2025.
A falha das passagens de fauna
O DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) construiu 2 passagens de fauna no trecho mais crítico da BR-262 (entre Miranda e Guia Lopes da Laguna) em 2018. As passagens — túneis de concreto de 3 metros de diâmetro instalados sob a rodovia — foram posicionadas em pontos identificados pelo ICMBio como corredores de deslocamento da fauna.
Monitoramento por câmeras trap do ICMBio confirmou que as passagens são eficazes quando existem: animais como antas, tamanduás e capivaras utilizam os túneis regularmente. No entanto, onças-pintadas — que são mais cautelosas e exigem passagens maiores — raramente utilizam as estruturas de 3 metros. A recomendação técnica é de passagens com no mínimo 5 metros de largura e 4 metros de altura para felinos de grande porte.
O Cenap/ICMBio recomendou ao DNIT em 2023 a instalação de pelo menos 12 passagens de fauna nos 120 km mais críticos da BR-262 — com custo estimado de R$ 14 milhões. Três anos depois, apenas as 2 passagens originais estão em operação. O DNIT informou, em resposta ao Foco do Estado, que "o projeto executivo para novas passagens está em fase de licitação, com previsão de contratação no segundo semestre de 2026".
A campanha pela redução de velocidade
Ambientalistas e pesquisadores defendem que, além das passagens de fauna, a redução da velocidade máxima permitida nos trechos críticos — de 80 km/h para 60 km/h — seria uma medida imediata e de baixo custo que poderia salvar dezenas de animais por ano.
Estudos internacionais demonstram que a redução de 80 para 60 km/h diminui a probabilidade de atropelamento fatal em 45%, por dar mais tempo ao motorista para visualizar o animal e frear, além de reduzir a energia cinética do impacto.
O presidente do Instituto Onça-Pintada, Dr. Leandro Silveira, reforça: "Uma onça-pintada vale mais viva do que morta — não apenas ecologicamente, mas economicamente. Cada onça que um turista fotografa no Pantanal gera milhares de reais em turismo. Cada onça atropelada é uma perda para o ecossistema e para a economia."
A PMA orientou o motorista do caminhão e registrou o boletim de ocorrência ambiental. O caso será encaminhado ao ICMBio para compor o banco de dados de atropelamentos de fauna e fundamentar a cobrança por novas passagens ao DNIT.
💰 O custo da omissão rodoviária
Animais atropelados na BR-262/ano
4.200 exemplares
Onças mortas em rodovias de MS (2025)
8 indivíduos
Custo de uma passagem de fauna
R$ 200 mil a R$ 1,5 mi
Valor ecológico de uma onça
Inestimável (topo da cadeia)
Fonte: PMA / ICMBio / Cenap / DNIT
❓ Perguntas Frequentes
🗳️ Enquete
O que faria mais diferença para proteger a fauna na BR-262?
Juliana Mendes
Repórter
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