Cobertura vacinal contra pólio em MS cai para 72% e estado entra em alerta
Meta do Ministério da Saúde é 95%. Queda é atribuída a fake news e dificuldade de acesso na zona rural. Sesau intensifica busca ativa.

A cobertura vacinal contra a poliomielite em Mato Grosso do Sul caiu para 72% em 2025, atingindo o nível mais baixo dos últimos 15 anos e ficando 23 pontos percentuais abaixo da meta de 95% estabelecida pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O dado, divulgado pela Secretaria Estadual de Saúde (Sesau-MS) com base no Programa Nacional de Imunizações (PNI), colocou o estado em alerta epidemiológico e motivou a criação de um plano emergencial de vacinação.
O quadro vacinal em números
A queda na cobertura contra a pólio não é um fenômeno isolado em MS — ela acompanha uma tendência nacional que preocupa epidemiologistas desde 2016. No entanto, a velocidade da queda no estado é mais acentuada do que a média brasileira, que registrou 77% de cobertura no mesmo período.
| Ano | Cobertura MS | Cobertura Brasil | Meta OMS |
|---|---|---|---|
| 2015 | 98,2% | 98,3% | 95% |
| 2018 | 91,4% | 89,5% | 95% |
| 2020 | 84,7% | 82,1% | 95% |
| 2022 | 79,3% | 77,2% | 95% |
| 2024 | 75,1% | 74,8% | 95% |
| 2025 | 72,0% | 77,0% | 95% |
Em números absolutos, a cobertura de 72% significa que aproximadamente 38 mil crianças menores de 5 anos em Mato Grosso do Sul não receberam o esquema vacinal completo contra a pólio — três doses da vacina inativada (VIP) aplicadas aos 2, 4 e 6 meses de vida, mais dois reforços com a vacina oral (VOP) aos 15 meses e aos 4 anos.
A situação é mais grave em municípios do interior com grande extensão territorial e população rural dispersa. Em Corumbá, a cobertura chegou a apenas 58%. Em Nioaque, 61%. Em Aquidauana, 64%. Na capital, Campo Grande, a cobertura foi de 78% — acima da média estadual, mas ainda insuficiente.
As causas da queda
A Sesau-MS realizou uma pesquisa qualitativa com 1.200 famílias em 15 municípios para entender os motivos da baixa adesão. Os resultados apontam três causas principais, em ordem de relevância:
1. Desinformação e fake news (34% dos casos): Um terço dos pais que não vacinaram seus filhos citou medo de efeitos colaterais divulgados em redes sociais como principal motivo. Vídeos falsos associando vacinas a autismo, doenças autoimunes e infertilidade circulam intensamente em grupos de WhatsApp e Facebook, especialmente em comunidades religiosas e rurais.
2. Dificuldade de acesso (28%): Em municípios com grande extensão territorial — como Corumbá (64.960 km²) e Porto Murtinho (17.744 km²) —, famílias na zona rural precisam percorrer até 120 km para chegar ao posto de saúde mais próximo. A precariedade das estradas vicinais e a falta de transporte público agravam o problema.
3. Esquecimento e desorganização (22%): Muitos pais iniciaram o esquema vacinal, mas não completaram as doses de reforço. A falta de um sistema eficiente de busca ativa — que localize e convoque as famílias inadimplentes — contribui para a perda de crianças no meio do calendário vacinal.
Outros fatores incluem a percepção equivocada de que doenças erradicadas não representam mais risco (12%) e a resistência ideológica à vacinação (4%).
O risco real de reintrodução da pólio
O Brasil foi certificado como livre da poliomielite pela OMS em 1994, após uma campanha massiva de vacinação que se tornou referência mundial. No entanto, especialistas alertam que a manutenção prolongada de coberturas abaixo de 95% cria as condições para a reintrodução do vírus.
"A pólio não desapareceu do mundo. Existem surtos ativos no Afeganistão, Paquistão e em partes da África. Com a globalização e o fluxo de pessoas, uma criança não vacinada de Campo Grande está a um voo de distância do vírus", alertou a epidemiologista Dra. Fernanda Torres, professora da Faculdade de Medicina da UFMS e consultora da OMS.
Em 2023, a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde classificou 312 municípios brasileiros como de "alto risco" para a reintrodução da pólio — aqueles com cobertura inferior a 50%. Em MS, 4 municípios entraram nessa lista: Ladário (47%), Bodoquena (49%), Nioaque (51%) e Anastácio (52%).
O plano emergencial de vacinação
Diante do cenário alarmante, a Sesau-MS lançou o Plano Emergencial de Intensificação Vacinal, que inclui seis estratégias simultâneas para elevar a cobertura a pelo menos 90% até dezembro de 2026:
Microplanejamento municipal: Cada um dos 79 municípios do estado deverá elaborar um plano detalhado de vacinação, mapeando bairro por bairro e comunidade por comunidade as crianças com esquema vacinal incompleto. O mapeamento será cruzado com dados do CadÚnico e do Bolsa Família.
Busca ativa comunitária: A Sesau contratou 200 agentes comunitários de saúde temporários para atuar exclusivamente na busca ativa de crianças não vacinadas. Os agentes farão visitas domiciliares nas áreas com maior déficit, priorizando comunidades rurais, indígenas e ribeirinhas.
Unidades móveis de vacinação: Quatro vans equipadas com câmaras frias percorrerão as regiões mais remotas do estado em um calendário itinerante de 8 meses. Cada van terá equipe de enfermagem e capacidade para aplicar até 200 doses por dia.
Campanha de comunicação: A Sesau investiu R$ 2,5 milhões em uma campanha publicitária multicanal com foco em combate às fake news. A estratégia inclui parcerias com influenciadores digitais de MS, inserções em rádios comunitárias e a criação de um canal de WhatsApp oficial para esclarecimento de dúvidas sobre vacinas.
Vacinação em escolas: Equipes de saúde realizarão mutirões de vacinação em 480 escolas estaduais e municipais, aproveitando o ambiente escolar para atingir crianças em idade de reforço (4-5 anos) cujos pais abandonaram o calendário.
Integração com Bolsa Família: A Sesau articulou com o Ministério do Desenvolvimento Social a inclusão da verificação do cartão de vacinação como condição para manutenção do Bolsa Família. A medida, que depende de regulamentação federal, pode afetar 84 mil famílias em MS.
O custo da negligência
Para além do risco epidemiológico, a baixa vacinação tem um custo econômico significativo. O tratamento de um único caso de poliomielite paralítica — incluindo hospitalização, reabilitação, órteses e acompanhamento ao longo da vida — é estimado em R$ 280 mil, segundo cálculos da Fiocruz. Em contrapartida, o custo completo do esquema vacinal contra pólio é de R$ 42,50 por criança (5 doses a R$ 8,50 cada).
"É uma conta simples: prevenir custa 6.600 vezes menos do que tratar. Cada criança não vacinada é um risco que a sociedade inteira paga", resumiu o secretário estadual de Saúde, Dr. Frederico Moraes.
A Sesau-MS disponibiliza informações sobre locais e horários de vacinação pelo telefone 136 (Disque Saúde), pelo site sesau.ms.gov.br e pelo aplicativo Meu SUS Digital. A vacina é gratuita e não requer agendamento.
💰 O custo da baixa vacinação para a saúde pública
Custo de tratamento de 1 caso de pólio
R$ 280 mil/vida
Custo por dose de vacina (SUS)
R$ 8,50
Crianças sem vacina completa em MS
38 mil crianças
Meta da OMS para erradicação
95% cobertura
Fonte: Sesau-MS / PNI / Ministério da Saúde / Datasus
❓ Perguntas Frequentes
🗳️ Enquete
O que mais impede a vacinação de crianças em MS?
Juliana Mendes
Repórter
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